sábado, 29 de outubro de 2016

Enigma


      Havia sangue pelo chão, quando Dora acordou, um gosto de algo podre dominava seu paladar. Voltou a dormir. Mesmo assim, não obteve paz.
Os pesadelos pululavam e a colocavam numa vida quase real. Aos doze anos, Dora passou um perfume, o primeiro de sua vida. E o pai disse que ela estava com cheiro de puta amanhecida. A menina não sabia exatamente o que era uma puta, mas, pelo tom de voz do pai e pelas vezes que usou esse vocábulo como xingamento, entendeu que não se tratava de algo bom.
De repente estava amarrada em uma cama de hospital. Sentiu sede, pediu água para o enfermeiro. Ele se aproximou com um copo de plástico e jogou a água na cara dela. A cena mudou rapidamente e Dora se viu em um corredor sendo estuprada. Tentava, sabe-se lá como, sair do pesadelo, no entanto não tinha forças para fugir do estuprador e nem para acordar.
A força que a movia no pesadelo era apenas para mudar as cenas. Passou para o lugar onde estava no momento. A noite  tinha sido de muita mágoa e muito choro. No amanhecer, Fred, seu companheiro, a acariciou, buscando sexo. Ela não queria. Ele masturbou-se e ejaculou nela. Dora sentiu a sua dor crescer e as forças para acordar cada vez minguavam mais. Sentou-se na cama porque a mãe a acordara para bater nela, pois havia descoberto um caderno em que Dora relatava seu interesse por um moço que estava morando, há pouco tempo, no bairro onde ela morava.
Acordou, coração acelerado, choro, cama demasiadamente grande. Trêmula, levantou-se para tomar água. A água tinha gosto de carniça, pois havia se misturado com o sangue que ainda estava na boca de Dora.
A dor no peito era insuportável, começou a vomitar sangue novamente. O companheiro, que acabara de chegar em casa, não viu necessidade de levá-la a um hospital. Dora não conseguia entender, pois, em outras vezes, ele a havia socorrido.
            Uma amiga passou a tarde com ela em um Pronto Socorro.
Quando Dora estava em casa novamente, sentiu pânico, chorou, chorou, não havia como arrancar a dor que sentia. O choro era insuficiente. Pensou em recorrer à escrita, mas a angústia aumentava e sentia medo de apanhar do papel e da caneta.
Começou a se lembrar de quando frequentava as aulas de crisma. O palestrante dissera que um verdadeiro cristão nunca se sentia triste. Dora sempre perambulava no mundo da tristeza, então não podia ser cristã. Nessa aula, achou que a sua infelicidade pudesse ser castigo. Quando criança, morria de medo de Deus. Na pré-adolescência, quando cursava o catecismo, não gostou quando a professora disse: Vocês podem duvidar de tudo, até dos livros da escola, mas não podem duvidar da Bíblia. Nesse dia, Dora fora para casa pisando o fogo do inferno. Gostava mais dos livros da escola do que da Bíblia. Essa obra lhe causava angústia.
O choro voltou com muita força, sentia-se culpada por ser ela, mas nem sabia quem era. Porém, achava que deveria ter sido o que a família, o companheiro, a Bíblia e Deus esperaram dela.
Agora não havia mais jeito, não conseguia desfazer a dor e, muito menos, a descrença e o medo que sentia da vida.
Dora sempre cortejara a dor e a morte. Na adolescência, fazia parte do grupo que ouvia músicas que desenhavam a tristeza, adentravam nessas letras. Possuía um amigo que, como ela, gostava dos autores malditos, conversavam sobre as obras, escreviam poemas. Não viam beleza na vida cotidiana. A maravilha estava lá: nos autores que mexiam em todos os órgãos não corporais do leitor.
Um suspiro. Saudade. Dor. Dúvida.
O choro voltou ainda mais forte. Lembrou-se de todos os amores que havia tido até o momento, parecia sentir na pele as cintadas por causa do caderno que a denunciou à mãe. A dor no peito voltou, o mundo estava desabando novamente. Agora também doía a barriga. Dora tinha um feto dentro de si, mas duvidava se seria digno colocar alguém num mundo em que ela não dava conta.
A dor no peito aumentou, a da alma era maior. Deixou o peito e o útero doerem, desejava que a dor fosse ainda maior, para que a sua angústia fosse amenizada.
Começou a sangrar. Da boca, saía uma gosma. Quando o marido de Dora chegou, ela estava morta.
Ele comunicou a família. Não compareceu ao velório e ao enterro.
Não se sabe se ele chorou a morte da companheira e a do feto.


domingo, 2 de outubro de 2016

Sem ensinar, a vó Tunica me ensinou o que é o amor

Oi, vó, bença. Nunca ficamos tanto tempo assim sem nos ver, né? Mais de um ano. E ficaremos muito mais.
Estava mexendo na caixa em que guardo o RG do meu pai, o isqueiro do vô Peron e um lenço da senhora. Ah, o seu cheiro, Tuniquinha, está nele. Chorei tanto de saudade da senhora.
Ouvi sua voz dizendo: Lianinha, pra tudo nessa vida se dá um jeito. Mas ouvir apenas na lembrança não me acalma totalmente.
Eu queria chegar aí na sua casa, ver seu rosto meigo, calmo e ouvir a senhora dizendo que toda noite reza por todos nós.
Ah! Meus dias têm sido movidos pela senhora. Para levantar-me da cama, penso: O que a vó Tunica faria para enfrentar esses problemas? Sei que uma das coisas seria rezar. Então, rezo. Para falar a verdade, vó, o que me move é saber o que a senhora faria no meu lugar e não é, propriamente, a oração  que me bota de pé.
Hoje eu estava tomando banho e lembrei-me de quando tinha um sapo no quintal, eu e o Denim começamos a gritar de medo. E lá veio a senhora com uma vassoura nos defender do ser asqueroso. Estou tendo de lutar com alguns sapos, vó. Queria que a senhora estivesse aqui com aquela vassoura para me defender. A senhora não está, mas ainda me protege.
A senhora se lembra do Lulu? Cachorrinho companheiro, né? E as plantas que a senhora tinha? Lembro-me sempre dos cipós. Não sei se existe outro nome para essa planta, mas, para mim, sempre que vejo uma, digo: Cipozinho da vó Tunica.
Ai, Tuniquinha, às vezes, sinto pena de quem não teve uma vó Tunica.
 Lembra-se de quando a senhora pedia para eu escrever cartas para a tia Luzia de São Paulo? Eu achava tão chique: minha letra com as palavras da senhora estavam indo para a capital.
Lembro-me da senhora dizendo: É, minha cara, nessa vida a gente tem que engolir o boi com chifre e tudo.
Certa vez, tentaram "quebrar" essa sua frase, dizendo-me que, picar o boi e transformá-lo em bifes, fica mais fácil.
Inútil. Nada supera a sabedoria da senhora. Engolir o boi com chifre e tudo faz a digestão ser mais dolorosa, mas a gente fica mais forte.
Eu ainda não acredito que a senhora morreu. Mais de um ano e a dor não passa. É como as dores que a senhora sentia nos ossos. Às vezes davam uma trégua.
Eu queria ver a senhora e contar tudo o que está acontecendo na minha vida e ouvir a sua calma voz, dizendo: Pra tudo nessa vida se dá um jeito. A sua voz, sim, me fortaleceria.
Depois escrevo mais para relembrarmos juntas da importância que a senhora tem na minha vida.
A senhora me ensinou o que é o amor, sem ensinar.
Tchau, vó, bença.


sexta-feira, 15 de abril de 2016

Odores de pedra

    Maria Flor nascera num ambiente em que nunca fora desejada. Perambulou durante os nove meses na barriga da mãe, sendo marcada pelas palavras impostas em sua casa.
    Quando o nascimento ocorreu, foi recebida por uma avalanche de não existir, embrenhou-se em uma guerra pela sobrevivência e adaptação. Perpassada por significantes desastrosos, lutava para entender que o bem-estar existia.
    Em uma tarde ensolarada, dia de seu aniversário de dez anos, foi cumprimentada pelo seu primo. Sentiu tanta tristeza, não controlou o choro.
    Escreveu em um caderno que estava triste e, como sempre, não sabia o motivo.
    Cresceu com as desgraças vomitadas a todo momento, mas tinha algo que a movia para buscar um outro caminho. Talvez fosse Deus, mas preferia acreditar que era a avó, mulher sábia e amável, mas esta mostrava para Maria que era Deus o criador de tudo e que esse ser sagrado não abandonava sua criação, se esta lhe prestasse obediência, sem questionar seus mistérios.
    O que seria um abandono de Deus? Ficar triste como Maria estava sempre?
    Maria tinha medo de ir para o inferno, tentava fazer tudo de acordo com as leis de Deus para ganhar o céu. Embora sentisse certa desconfiança dessa tese, preferia não arriscar.
    Quando os doze anos visitaram Maria, a encontraram perturbada e não havia com quem dividir a tal perturbação. As palavras existiam para quem tinha a permissão de proliferá-las. Para Maria, o seu corpo era a própria palavra, uma palavra invadida, forçosamente invadida por um pênis. Seus gritos de dor e socorro eram abafados pela mão do que a julgava merecedora daquela invasão.
    Os mais profanos e angustiantes vocábulos fizeram-se presentes dentro dos  órgãos de maria Flor.
Falar sobre? Jamais. Era mulher e mulher tinha de se comportar, caso contrário merecia ser agressivamente invadida. Era culpada, mas não entendia o que era se comportar. Talvez fosse ficar trancafiada em casa.
    Depois de um tempo, o acontecimento desapareceu. Não lembrava mais disso. Somente carregava a dor ainda mais intensificada.
    Maria Flor encontrou, na vida adulta, um ferrenho medo da perda e da dor. Era estranho sentir medo do sofrimento, pois vivia nele constantemente. Como sentir medo de estar onde sempre esteve?
    Quando se descobriu grávida, alegrou-se e desesperou-se. Nunca achou a vida natural. Via como uma agressão obrigar um ser a estar no mundo. E ela estava fazendo o mesmo que fizeram com ela. Resolveu emprestar seu corpo para ser fruto da mais desnaturalizada das coisas: dar ao mundo um filho, ou dar um filho a um mundo. Será que este ser queria a vida? 
   O nono mês de gravidez encontrou Maria Flor espancada por lembranças. Num domingo ensolarado, a gestante esbravejou recordações, tomando a voz de seu pai, que havia morrido há anos:

   Cheguei do trabalho junto com minha esposa, tomei banho, alguns tragos no cigarro e na pinga e saí. O bar próximo de casa aglutinava amigos, mulheres, baralhos, cerveja e cachaça. Eu sempre traía minha esposa com putas e não putas. As que recebiam a segunda nomeação tinham família. Naquela noite, tudo transcorria normalmente até que resolvi brigar no boteco. Não sei por que usei a palavra “resolvi”, pois minhas brigas e agressões nunca se tratavam de uma resolução. Gritei, esbravejei, xinguei, bati, apanhei e saí sem pagar a conta, para outro recinto. Já estava embriagado e meu ódio aparecia e aumentava toda vez que o álcool possuía meu corpo. Não! O álcool não era meu inimigo e nem vilão, era um parceiro quase inseparável, ele me deixava do jeito que eu queria que ele me deixasse; sem ele, eu era apenas um trabalhador tolhido pela dor. Quanto ao meu ódio, não sei seu remetente verdadeiro, sei apenas que eu o enviava às pessoas queridas. Será que meu ódio era meu bem mais precioso? Voltemos à cena do segundo bar da noite. Bebi, briguei, agredi e fui agredido. Voltei para casa de madrugada, esmurrei a porta da cozinha, Geórgia a destrancou, continuei esmurrando e comecei a gritar: Abre, puta desgraçada, hoje eu te mato. Minha filha, sonolenta, ouviu gritos ao fundo que se misturaram com seus sonhos. Acordou assustada, quando a mãe entrou no quarto dela. –– Seu pai está bêbado, esmurrando a porta... –– Você não vai abrir? –– Já abri. Cansei de dar murros, entrei na cozinha, peguei uma faca fui para meu quarto. A desgraçada não estava lá... –– Agora eu vou matar vocês duas. As pobres coitadas estavam trancadas no quarto de minha filha. Um pontapé abriria aquela porta, mas não dei o pontapé. Fiquei batendo na porta e gritando o ato que eu queria cometer. Geórgia olhou pelo espaço que havia entre a porta e o portal e viu a faca em minha mão, convocou a filha para pularem a janela. Pediram socorro na casa de parentes. A polícia foi acionada. Antes de a polícia chegar, a porta do quarto se abriu com os meus socos. As desgraçadas tinham fugido. Joguei colchão, enfeites, panelas, cadeiras pelo chão da casa toda. Me dirigi, cambaleante, até o quintal e, embaixo do pé de mexerica, soltei uivos de ódio. A vizinha ficou me olhando assustada por cima do muro. Foi merecedora do meu ódio também. Algemado, fui levado para a delegacia, onde passei o resto da madrugada. Logo pela manhã, fui solto. Fui ao barbeiro, em seguida, ao bar. Voltei para casa, e as caras de assombro e medo de Geórgia e de minha filha eram perceptíveis de longe. Perguntei para minha filha quem havia chamado a polícia, ela disse que não sabia. –– Manda o desgraçado que chamou a polícia vir me enfrentar sem eu estar com algemas. Xinguei Geórgia, minha filha e o cunhado que acabara de chegar. Mais uma vez, saíram fugidas de casa. Passou-se uma semana e eu não sabia para onde tinham ido. Voltaram, mas acompanhadas pela polícia para retirarem suas roupas. Eu quis agredi-las, mas, quando vi o policial, estoquei minha agressividade para ser liberada em outro momento.         Acho que o guarda não merecia meu ódio. Dias depois fui avisado que deveria deixar a casa. Eu ajudei a erguer aquelas paredes, que guardavam dores, mas foram casulos de alguns momentos que não pesam na minha recordação... –– Ah, a vida é uma festa... Cantou minha filha, ainda pequena, quando a casa estava tomada por pedreiros, cimento, sujeira e muito cansaço. Olhei para ela, que estremeceu de medo, soltei uma gargalhada. Contei várias vezes essa história entre os amigos de boteco... eu não tinha muitas outras parecidas.
Eu sempre tive histórias desastrosas para contar como esta: Num domingo à tarde, minha filha, adolescente, estava estudando na sala, Geórgia havia ido para a casa da mãe. Mandei a filha pegar o rádio e ligá-lo para mim na varanda, pedi um lápis para ela e, tomando pinga, ouvindo música, escrevi um bilhete como se outro homem tivesse escrito para minha esposa. “Geórgia, te encontro hoje no mesmo lugar. Beijo do seu homem.” Em seguida, mandei minha filha ir até a varanda para desligar o rádio, fui até o quarto e coloquei o bilhete na janela. Deitei no chão da varanda e dormi.       A adolescente ficara atenta a todos meus passos e me seguira até o quarto sem eu perceber, me viu botando o papel na janela. Depois que eu adormeci, ela foi pegar o papel e perdeu o chão... Não acreditava em tamanha crueldade e idiotice de mal ter disfarçado minha letra. Cambaleando, saiu de casa para ir até a casa da avó, como uma fugitiva, tremia e olhava para trás para ver se não estava sendo perseguida por mim. Aos prantos mostrou para a tia o bilhete e contou a cena.                  Morrendo de medo de mim, não quis voltar para casa e temia por Geórgia, que chegaria sem saber o que estava acontecendo. Minha esposa chegou, eu estava bebendo cerveja, comecei xingá-la e falar do bilhete, ela disse que não sabia do que eu estava falando. Fui até a janela e vi que o bilhete não estava mais lá. Ofendi Geórgia e falei que ela havia retirado o papel. Quando me dei conta de que minha filha não estava mais em casa, imaginei que ela havia pegado e ido para a casa de minha mãe. Fui atrás dela, minha esposa foi em seguida, com medo que eu agredisse nossa filha. Tinha toda razão de sentir tal medo... Só não espanquei a moça porque fui segurado e, nesse dia, xinguei minha progenitora, ajoelhado no chão, prometendo que nunca mais olharia na cara dela, por ter defendido as duas desgraçadas. A dor de minha mãe só foi maior no dia da minha morte, muitos anos depois. 
    Passei anos sozinho, remoendo minha dor de ter me separado da minha casa e da minha família. Via poucas vezes minha filha, mesmo quando fomos vizinhos. Passados 10 anos de minha separação, problemas de saúde ocasionados pelo álcool e pelo cigarro me impediam de trabalhar, tinha de contar com a ajuda da Assistência Social, minha filha e familiares. Não conseguia abandonar o álcool e me envergonhava quando algum parente me via nos bares da cidade. Minhas agressões e xingamentos já não se proliferavam mais. A minha súplica era pela morte, nada apaziguava minha tristeza. Nessa época, minha filha começou a me visitar com mais frequência. As visitas tinham de ser nos bares, eram meu lar. Ela sentia grande pesar por me ver sofrendo. O meu ódio tinha minado e o ódio dela por mim havia se transformado em compaixão, mas ainda tinha medo do amor que sentia por mim. Em um domingo à noite, liguei a TV para ver futebol. Acendi um cigarro, tomei um copo de pinga, senti um incômodo, dificuldade para respirar, apaguei o cigarro, melhorei. Uma dor insuportável adentrou meu peito, uma gosma começou a escorrer pela minha boca. ¬–– A morte chegou, até que enfim. A dor aumentou, aumentou e meu pescoço pendeu para frente. Fiquei ali no sofá por mais de 24 horas até ser encontrado por minha sobrinha. O corpo em decomposição não poderia ficar à mostra. O caixão veio lacrado. Uma foto em cima da caixa que carregava os restos de uma história de muita dor. Muitas lembranças, café e cigarro para aguentar a noite. De manhã, deu-se o meu enterro.

    No crepúsculo deste domingo espancado, ouviram-se gritos, choros. O filho de Maria Flor nascera e ela fora petrificada; no dia seguinte, ela fez companhia aos dejetos de Dário.

segunda-feira, 6 de abril de 2015

Morte, você é petulante!

Uma aluna do sexto ano, dias atrás, depois da leitura de um texto que falava sobre o fim da vida, disse:
__ A morte, às vezes, pega pesado, né, “psora”.
Comentários surgiram a partir disso, a aula fugiu (ainda bem) do que estava programado  e a frase dessa pré-adolescente ressoa em mim desde então.
“A morte, às vezes, pega pesado”...
Ah! Às vezes? Não é sempre que essa senhora pega pesado? E, brilhantemente, ela é de profunda importância... Saramago nos ensinou isso em “Intermitências da morte”... Tantas outras pessoas nos ensinaram/ensinam isso...
Mas qualquer escrito perde valor no momento em que a morte vem para aqueles que acreditávamos que nunca morreriam...
Já escrevi e falo sobre o medo que eu tinha de a vó Tunica desaparecer enquanto eu estava na creche. Quando descobri que isso não aconteceria, determinei eternidade para ela.
No dia 5/3/2015, algo resolveu contrariar minha sapiência infantil... e a vó Tunica teve de partir.
Um mês após esse grande peso da morte, começo a sentir o alívio que o peso da história pode proporcionar.  Uma história cravada nas palavras... Isgrise, esbrontolar, jhavai, dirondar, tonheto, garribarde... Dar significado para esses vocábulos é quase impossível... buscam-se definições para essas e outras expressões; no entanto, a força delas está na vó, é a própria Dona Tunica:  Contar pratinhas para pagar as contas, ensinar que, na vida, para tudo tem um jeito, bater palmas quando o “parmera vara um gô”, mandar arrumar o chinelo que está  tonheto, ficar com isgrise, gritar de dor ao saber da morte do meu pai, sempre trabalhar e cuidar muito de todos, fazer sopa de macarrão comprido ou macarrão picado, pegar o istroce para pôr ali no coiso, rezar, contar as histórias da Sá Maria, da panela de polenta que a bisa não permitia que fosse lavada no outro dia, ensinar a importância de se ir à missa e aos velórios, fazer  visitas na casa da “cumade” Ana, cortar cabelo na Leninha... As histórias da vó, lembradas, esquecidas, relembradas,  sempre dirondarão por todos nós, sobrepondo seu peso ao da morte.
A vó Tunica sabia que a história era mais forte que a partida, construiu, para nós, o “nonim”, por meio de relatos (nunca precisamos de retratos para vê-lo nas festas e lidas da roça e, até mesmo, na dor de ter uma doença incurável).
Muitas vezes, procurei Deus, deuses, santos, entidades, velas e, inclusive, o nada, para entender  o susto, a revolta, a dor de ver alguém tão amado partir. Depois de tantas perdas, agarrar-me ao não entendimento da morte, sentindo o peso dela, me traz a força  histórica, que me deixa respirar e me curar, como os queijos no sítio do Zé Peron, o qual  também nos deixou grandes histórias... deixou lá a cadeira dele, o chamamento da vaca Guaíra, o recitar mais belo de xingamentos, a força do trabalho e do olhar. Lá do sítio, sai o cheiro do pão de chocolate... e sai, também,  lá da casa da tia Isabel, a Beluda, que fazia pão e chá de chocolate... proseávamos e proseávamos... era prosa para mais de metro. Ela ainda grita dentro de nós: “Cala-te, boca.” “Cê que não muda esse jeitinho, não.” “Oh, língua maléfica”...
As histórias dessas e outras pessoas amadas  constroem minha história, meu sangue... que é perpassado pelo Zé, meu Zé Umberto Gazola, trajado de  durezas e fraquezas... Meu Zé... Meu e da vó Tunica, a essência da minha explosão perante a história.
A morte pega pesado... Muito pesado! Ela é petulante o suficiente para nos deixar no desamparo da ignorância...
Que as histórias possam sempre me reconstruir...


sexta-feira, 6 de março de 2015

Tchau, vó. Bença.


Sim! O corpo no caixão era o dela. Não queríamos que fosse.
O velório se iniciou; do carro de som, saíram tão inacreditáveis palavras:

"A família Gazola anuncia o falecimento de Antônia Rossetti Gazola, mais conhecida como Dona Tunica. (...) O enterro será no dia 6/3 às 8h (...)"

Enterro... Enterrar a vó Tunica. Ah! Alguém estava fazendo uma brincadeira de mau gosto. Nós jamais deixaríamos a terra cobrir a nossa amada... Mas o corpo dela, gelado, com flores, com um rosário, gritava que a vó também fazia parte dos corpos mortais.
O corpo mortal tão carregado da imortalidade, sustentada pela força das lembranças e do amor. 
Muita dor, tristeza, pranto e, no decorrer da noite, risos, histórias  e  mais histórias da vó com seus netos.
Eu tinha 8 meses de idade, quando comecei a passar o dia todo na casa da vó. Meus pais trabalhavam e me buscavam à noite. 
Ela sempre contava que eu assistia à novela dos gatinhos com ela e também que morria de medo de passar pelo portão da rua sozinha. Não me lembro disso, mas recordo-me do temor que tive quando, aos 5 anos, comecei a frequentar a pré-escola, na creche, que ficava quase em frente à casa da vó. Eu queria que o dia passasse muito rápido para eu ter certeza de que ela ainda existia ali do outro lado da rua.
Depois, descobri que, mesmo eu não passando o dia todo com a Dona Tunica, ela não sumiria. Que alívio!
Aos domingos, íamos à missa juntas. Eu não entendia muito bem tudo o que era falado pelo padre Franco, mas de uma coisa eu tinha a máxima certeza: "Oremos" significava: "Levantem". Ele dizia: "Oremos" e todos se levantavam... Passaram-se alguns anos para essa minha certeza ser substituída pelo entendimento do ritual.
Hoje o mesmo padre Franco rezou aos pés do corpo da vó. Ele não disse a tão marcante palavra, porém, assim que ele chegou perto do caixão, levantamo-nos... Lembrei-me das cenas dominicais e pensei que minha maluca certeza poderia ter um pouco de razão...
"Tudo dia, eu rezo proceis. Pro meus fio, pro meus neto... pa tudo, pa tudo." Imagino que tenhamos nos levantado de tantos tombos pelo amor da oração da vó.
E o amor dela também me fez amar as palavras. Quantas e quantas vezes ela ouvia minhas histórias inventadas e dava trela para eu prosseguir.
Num dia, sentados no chão da varanda, eu e meu primo contávamos para ela mais uma invenção literária. Ela disse:
__Que história mais sem pé, nem cabeça...
Respondi que o menino da história não tinha nem pé, nem cabeça mesmo...
__ Ah é?
E continuou emprestando toda sua atenção de leitora de narrações.
Ah! E a paixão dela pelas palavras em forma de letras... Era analfabeta, em razão de "mulher não tem que ir para escola", regra impregnada em boa parte da sua vida. Depois de adulta e já com netos, embora insistíssemos, não quis quebrar esse "tabu", talvez por vergonha...
Bom! Mas mesmo "sem leitura" (como ela dizia), nos ensinou a beleza e o prazer dos estudos...
Ensinou-nos tanto, tanto... A maior lição foi a do amor, esse sentimento tão difícil de se atribuir um significado que o abarque completamente.
Hoje, vó, me despedi da senhora, como sempre: "Tchau, vó. Bença." Mas não ouvi as palavras que acompanhavam nossas despedidas: "Tchau, Lianinha. Deus te 'bençoe'. Toma cuidado por tudo. Tenha uma boa noite sagrada. Vai com Deus e Nossa Senhora."
Ah, minha, nossa, vó Tunica... quanta saudade!!
Mande um beijo meu aí para seu amado filho __ meu velho pai... 
Tchau, vó. Bença.




domingo, 25 de janeiro de 2015

Rosa era o vestido... Um vestido rosa


Junho se aproximava, começavam os preparativos para a festa junina na creche. A menina não possuía vestido para dançar no mais importante evento escolar... para ela...
A mãe, com poucos recursos financeiros, mas com a mais ativa criatividade, providenciou um belo vestido rosa com babados. Nunca tivera roupa tão exuberante, tinha vontade de colocar o vestido todos os dias, até para tomar banho.
Um encantamento sem tamanho e freio passava pelo calor de sua espinha, toda vez que se imaginava usando o vestido rosa.
Chegou o ensaio final da quadrilha. Todas as crianças vestiram-se com as roupas que usariam na apresentação da grande dança. Parada, próxima ao pátio, sentiu algo intensamente extraordinário, um remoer dentro do estômago, um palpitar de todos os órgãos... Não tinha nenhuma nomeação para o que sentia, apenas sentia e sabia que era bom, muito bom. E não imaginava o quanto procuraria, ao longo da vida, esse sentimento não nomeado, quase impossível de significação.
O grande dia chegou... deve ter sido bom! Talvez sim, talvez não... Nunca conseguiu se lembrar do momento da dança e do que sentira e nem, ao menos, do seu par na quadrilha.
Ah! Mas a menina parada perto do pátio, com o vestido rosa... essa passou a ser procurada ao longo da vida...
No guarda-roupas dividido com os pais e irmão, estava ele, dobrado e sempre bem passado: o vestido rosa.
Vestira algumas vezes a encantada peça, porém aquele sentimento da creche não aparecia. Contemplava o vestido e sentia o cheiro daquele dia, fechava os olhos, e somente o aroma passava por ali.
Com o passar do tempo, foram contando para ela que não havia como resgatar aquela sensação e que deveria contentar-se com a lembrança.
Menina teimosa, sempre um pouco descrente no "não é possível", deixou o vestido rosa de lado, porque crescera e ele não se adequava mais ao seu corpo, mas nunca deixou de procurar as proximidades do pátio da creche.
Numa procura desconhecida, muitas vezes não sabia que era aquele vestido que estava procurando, foi perdendo a teimosia e acreditando que deveria ficar apenas com o contar daqueles sentimentos. Passou a acreditar que deveria nomeá-los e guardá-los para serem preservados da corrosão que começara  habitar suas esperanças. Os nomes, os significados para aquele explodir belo e intenso mataram, rasgaram, implodiram o vestido rosa, a creche e aquela menina que fora habitada pelo não significado... E restou apenas o lembrar. E também o esquecer.
Teimosia, confusão e procura camuflada... na cama, nos olhos, no amor, na dor, no sabor, na creche, no nome, no sobrenome, na letra, na fruta, na álgebra.
Ah, menina de vestido rosa, nas proximidades do pátio da creche, no último ensaio da quadrilha, permaneça aí, fuja das lembranças, da busca, dos nomes. Fique aí, onde você não está... onde você realmente existe...









sábado, 13 de dezembro de 2014

Não está... mas está em todos os corpos

Chegou. Um barulho. Algo morto estava ali dentro daquela vida. Quando criança, chegara a acreditar em ressurreição. O deus maior não permitia a dúvida.
Acreditava que, depois do fechar de olhos, seu corpo teria a vida de novo, em algum canto do céu.
O olhar mais tenebroso! Parece que a moça do catecismo estava certa! Ressurreição... Aquela catecista de cabelos enrolados só se esquecera de explicar que a ressurreição acontece no labirinto das veias mais podres e petrificadas.
O que acordou? O que foi pedido?
Uma poça de sangue para ser adentrada... Como?
Risos... Escárnios... Uma dor coroada com os espinhos do Cristo.
Sentiu mais uma veia podre pedir vida. Tão belo esse Cristo na cruz.
Mais uma veia pede vida.
Mais um sexo, mais pernas, mais uma tentativa...
O corpo que pede a ressurreição das veias não está... mas está em todos os outros que a entrelaçam...
Tentativas inúteis de pegar o que lá foi colocado... Lá? Onde? O quê? Para quê? Por quê?
As veias pulsam e querem dar vida à morte... conseguem.  Algo vivo, demasiadamente vivo, a leva para um abismo, uma loucura, um florescer.
Mais pernas, mais, mais e mais...
Tentativas inúteis, sexos inúteis.

As veias pulsam... Eram mais belas quando estavam podres.