terça-feira, 17 de fevereiro de 2026
A trincheira da encruzilhada
O café repousa, esquecido e frio, como um cadáver de louça sobre a mesa, enquanto Maria naufraga o olhar no asfalto que arde lá fora. O sol do meio-dia é um carrasco que não pede licença; ele invade o cômodo, expondo a poeira que dança no ar, partículas de um cansaço que os séculos de servidão não deixam limpar. Maria não é apenas um nome, é uma geografia de cicatrizes, um mapa de mãos calejadas por carinhos devolvidos em forma de espinhos. Ela observa o desfile dos injustos: a vizinha, cujo coração é um deserto de empatia, ostenta o brilho de um metal novo, enquanto o patrão, que costura o lucro com a linha do suor alheio, sorri em molduras de ouro. A vida parece um banquete onde os lobos se fartam e as ovelhas pagam a conta.
“Por que o açoite do desprezo sempre encontra as minhas costas? Eu, que fiz do meu peito um abrigo e da minha cozinha um altar para saciar a fome de quem hoje me cospe. Eles me olham como se eu fosse um bicho, uma criatura de rito e resto, esquecendo que foi o meu axé que segurou o mundo deles quando o teto ameaçou desabar. O amor que plantei colhi em pedradas de indiferença. Dizem que meu santo é 'pesado', mas pesado é o fardo de ser gente num mundo que só entende o cifrão. Sou carne, sou sangue ou apenas a sombra que limpa o chão de quem se acha dono da luz? Meu pranto é o mar de Iemanjá, mas meu silêncio é o trovão que Xangô guarda para o dia do acerto.”
No canto da sala, o sagrado é sua única trincheira contra o preconceito que se veste de linho. Maria não teme os mortos, pois eles guardam o segredo do repouso; seu pavor nasce dos vivos, dos "homens de bem" que usam a fé como chicote para marcar a classe social. Entre o aroma da arruda e o mistério do fumo, ela invoca seus advogados invisíveis. Iemanjá é o colo de sal que lava a alma da subalterna; Xangô é o machado da verdade que corta o nó cego da injustiça. Lula, na parede, é o espelho de carne: o Xangô que vestiu a faixa para equilibrar a balança, o Zé Pilintra que driblou a fome e o preconceito para provar que a dignidade não se curva ao terno e à gravata.
Para ela, a justiça é uma encruzilhada onde o místico e o político se abraçam. Seu Zé Pilintra é o guia da malandragem santa, aquele que conhece o lodo da rua, mas mantém a alma branca. Ele e o "homem do povo" são a mesma reza: a prova viva de que quem foi tratado como bicho também pode governar o destino. Maria ajeita a guia no pescoço, sentindo o peso do cristal contra a pele. Se a justiça humana é um labirinto de conveniências, a de seus guias é o rio que sempre encontra o mar. Ela se levanta, não como quem aceita a derrota, mas como quem sabe que o tempo é um senhor que não dorme, e que cada lágrima sua está sendo devidamente anotada no livro de Xangô.
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