Eliana Gazola
As palavras buscam um papel...
quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026
O que cabia no vazio das mãos
Helena caminhava pela cidade como quem carrega um vidro invisível entre as mãos: se apertasse demais, quebrava; se soltasse, estraçalhava. Desde pequena, suas feridas eram tratadas como ranhuras em móveis velhos, detalhes incômodos que a estética da casa exigia ignorar. Quando chorava, ouvia que era nervosa; quando sangrava, diziam que era exagero. Sua existência tornou-se um rascunho mal lido, uma sucessão de frases interrompidas pela pressa alheia. Como Macabéa, Helena parecia pedir desculpas por ocupar um deslocado espaço no ar, mas, ao contrário de Macabéa, que ignorava sua própria miséria, Helena sentia o peso de cada átomo de sua insignificância. Se Macabéa era feita de algodão sujo, Helena era feita de um silêncio que ninguém se dava ao trabalho de traduzir.
A tragédia não veio da solidão, mas do retorno agressivo daqueles a quem ela entregou seus melhores anos e sua própria substância. Pessoas que ela alimentou com o próprio tempo e renúncia passaram a cercá-la com um ódio inexplicável. Onde antes havia o sacrifício dela, floresceu neles uma perseguição voraz, como se a simples existência de Helena fosse uma dívida que eles se recusavam a pagar. A angústia que a sufocava não era o medo de perder algo concreto, mas a sensação de estar saturada pela vontade do outro. Era o sufoco de ser transformada em um objeto estranho, um depósito de culpas alheias, presa em um espelho que devolvia uma imagem distorcida que todos juravam ser sua única face.
Helena se deu conta de que ela era a cena preterida, o resto que sustentava o banquete daquelas pessoas. Entendeu que o mal que lhe faziam era a única forma que eles tinham de não olhar para o próprio vazio. Em um gesto concreto de ruptura, ela caminhou até o armário onde guardava as memórias e objetos daqueles que a perseguiam. Sem o drama do choro ou a busca por uma explicação que o outro nunca daria, ela reuniu tudo em uma caixa e a deixou no meio da calçada, entregando ao vento o que não lhe pertencia mais. Ao fechar a porta de casa e trancá-la pelo lado de dentro, não para se esconder, mas para delimitar onde o outro terminava, ela sentiu o nó na garganta ceder.
O impacto desse não silencioso reverberou como um colapso invisível na estrutura daqueles que a perseguiam. Acostumados a vê-la como o suporte passivo de suas próprias frustrações, o súbito vácuo que ela deixou desorientou o grupo. Sem o alvo, o ódio deles perdeu o vetor; sem o espelho que Helena lhes oferecia, eles foram subitamente confrontados com as próprias deformidades que antes projetavam nela. A perseguição, que antes se alimentava da reação e da dor dela, tornou-se um monólogo histérico e vazio. Ao não oferecer mais a sua angústia como banquete, Helena desintegrou o laço que os unia na crueldade.
Ao cair da tarde, o apartamento de Helena exalava o cheiro de uma casa que já não esperava por ninguém. A porta da frente, encostada, balançava levemente com o vento do corredor, revelando uma sala impecavelmente limpa, despojada de qualquer traço de quem a habitou. Na mesa da cozinha, a maçã que antes apodrecia fora removida, deixando apenas uma mancha circular e seca na madeira, como um carimbo de algo que deixou de ser. Não havia bilhetes, nem explicações, apenas o silêncio de quem retirou o corpo de cena para que o espetáculo do ódio alheio perdesse o sentido por falta de audiência.
Na calçada, a caixa de memórias que Helena descartara estava revirada pelo vento, com fotografias rasgadas voando em direção ao bueiro. Algumas quadras dali, uma mulher com o passo firme de quem não carrega mais o peso do mundo nos ombros foi vista entrando em um ônibus de viagem, sem olhar para trás, levando apenas o que cabia no vazio das mãos. Ao mesmo tempo, vizinhos comentavam sobre o som de algo pesado atingindo a água do rio que cortava a cidade, um mergulho definitivo na escuridão profunda que sempre a rondara. Helena agora era uma ausência absoluta, um enigma que aqueles que a perseguiam jamais conseguiriam decifrar. Onde quer que estivesse, ela deixara de ser o objeto de todos para se tornar o mistério de si mesma.
terça-feira, 17 de fevereiro de 2026
A trincheira da encruzilhada
O café repousa, esquecido e frio, como um cadáver de louça sobre a mesa, enquanto Maria naufraga o olhar no asfalto que arde lá fora. O sol do meio-dia é um carrasco que não pede licença; ele invade o cômodo, expondo a poeira que dança no ar, partículas de um cansaço que os séculos de servidão não deixam limpar. Maria não é apenas um nome, é uma geografia de cicatrizes, um mapa de mãos calejadas por carinhos devolvidos em forma de espinhos. Ela observa o desfile dos injustos: a vizinha, cujo coração é um deserto de empatia, ostenta o brilho de um metal novo, enquanto o patrão, que costura o lucro com a linha do suor alheio, sorri em molduras de ouro. A vida parece um banquete onde os lobos se fartam e as ovelhas pagam a conta.
“Por que o açoite do desprezo sempre encontra as minhas costas? Eu, que fiz do meu peito um abrigo e da minha cozinha um altar para saciar a fome de quem hoje me cospe. Eles me olham como se eu fosse um bicho, uma criatura de rito e resto, esquecendo que foi o meu axé que segurou o mundo deles quando o teto ameaçou desabar. O amor que plantei colhi em pedradas de indiferença. Dizem que meu santo é 'pesado', mas pesado é o fardo de ser gente num mundo que só entende o cifrão. Sou carne, sou sangue ou apenas a sombra que limpa o chão de quem se acha dono da luz? Meu pranto é o mar de Iemanjá, mas meu silêncio é o trovão que Xangô guarda para o dia do acerto.”
No canto da sala, o sagrado é sua única trincheira contra o preconceito que se veste de linho. Maria não teme os mortos, pois eles guardam o segredo do repouso; seu pavor nasce dos vivos, dos "homens de bem" que usam a fé como chicote para marcar a classe social. Entre o aroma da arruda e o mistério do fumo, ela invoca seus advogados invisíveis. Iemanjá é o colo de sal que lava a alma da subalterna; Xangô é o machado da verdade que corta o nó cego da injustiça. Lula, na parede, é o espelho de carne: o Xangô que vestiu a faixa para equilibrar a balança, o Zé Pilintra que driblou a fome e o preconceito para provar que a dignidade não se curva ao terno e à gravata.
Para ela, a justiça é uma encruzilhada onde o místico e o político se abraçam. Seu Zé Pilintra é o guia da malandragem santa, aquele que conhece o lodo da rua, mas mantém a alma branca. Ele e o "homem do povo" são a mesma reza: a prova viva de que quem foi tratado como bicho também pode governar o destino. Maria ajeita a guia no pescoço, sentindo o peso do cristal contra a pele. Se a justiça humana é um labirinto de conveniências, a de seus guias é o rio que sempre encontra o mar. Ela se levanta, não como quem aceita a derrota, mas como quem sabe que o tempo é um senhor que não dorme, e que cada lágrima sua está sendo devidamente anotada no livro de Xangô.
quarta-feira, 8 de abril de 2020
Equações fechadas em si e em Se
Levantou-se, tomou um banho, tomou café e, mais uma vez, refez suas contas. Como isso era complicado... para José.
Acendeu um cigarro e refez as contas novamente.
Não se tratava apenas de contas físicas, mas, sim, de uma prestação do que havia feito da vida até o momento.
José trabalhava em escritório de contabilidade e escrevia crônicas para jornais. Por anos, quis deixar o emprego e se dedicar somente à vida de escritor ou continuar se dedicando às letras e ter um outro emprego menos estressante que o de contador.
Acendeu outro cigarro e fez as fatídicas contas novamente. As físicas estavam ok, mas as equações fantasmáticas se resolviam com um Se. Meu Deus! Por que tanta tortura?
Arrumou-se e foi para o trabalho. Mais um dia estressante, perturbador. Como sempre, queria ir embora e largar tudo aquilo. Conteve-se e o expediente acabou. Chegando em casa, José escreveu mais uma crônica para um jornal e sentiu-se realizado. Dormiu.
O despertador tocou, levantou-se, tomou café e... refez as contas. Vale a pena tanto estresse? Mas sem esse estresse não tenho renda completa para minhas despesas... mas, se deixar o escritório, posso arrumar outro emprego ou escrever para mais jornais...
Suspirou, tomou um banho, arrumou-se e foi para o trabalho. No fim do dia, encontrou-se com sua namorada, beberam, conversaram e se amaram. José teve a sensação, mais uma vez, de que as suas contas o haviam deixado em paz. Dormiu.
Levantou-se às 6 da manhã e foi se encontrar com seus fantasmas. Não aguentava mais viver assim. Anos e anos, passando por essas malditas equações devastadoras.
José sabia que qualquer caminho que tomasse o levaria para o Se... Era isso que ele queria eliminar ou, ao menos, minimizar.
Conversou com a namorada sobre suas dúvidas profissionais e ela, mais uma vez, o aconselhou a tentar diminuir sua carga horária no escritório, tendo mais tempo para as escritas.
Ele acatou e decidiu fazer esse pedido no escritório. Conseguiu! Passou a trabalhar meio período como contador e, no tempo fora do escritório, escrevia e estudava.
Por alguns meses, José se sentiu feliz e longe das suas malditas equações fechadas em si e em Se.
Trabalhava feliz em seus dois ofícios.
José teve propostas de mais jornais e sua vida financeira melhorou. Não era ruim, pois sempre conseguira pagar suas despesas, mas havia ficado melhor.
Voltou a ver a vida com vontade de estar nela, de estar onde estava. Alívio. Alívio!
O despertador tocou, levantou-se, tomou café, banho e foi para o trabalho. Lá foi avisado de que a Bolsa de Valores estava com vagas abertas. Vários colegas dele estavam alvoroçados com a notícia e estavam enviando currículos. José teve a certeza de que não queria aquela loucura. Estava bem.
A vida corria normalmente. José estava satisfeito.
E se eu tivesse me inscrito para as vagas da Bolsa? Poderia ter passado e estar com mais dinheiro. E, ainda, poderia continuar a escrever. E, se um dia, for mandado embora de meu emprego? Terei de aceitar outro em que eu trabalhe o período todo e, provavelmente, com salário inferior ao da Bolsa de Valores.
Acendeu um cigarro e sentou-se com suas equações novamente. Os resultados não eram diferentes.
Torturou-se o fim de semana inteiro. Mal teve tempo de apreciar a companhia de seus amigos e de Maria.
Insatisfeito com a quantidade tortura, apertou um pouco mais as cordas equacionais que o sufocavam. E se eu tivesse feito outras escolhas na adolescência? E se eu tivesse escolhido outra namorada? E se eu tivesse escolhido ter filhos? Com outras escolhas eu não me torturaria tanto? José sabia que outras escolhas também o teriam levado para mesma masmorra.
Ficou sem ar, perdeu a noção de espaço e tempo. Sufocou-se em seus Ses. Sufocou-se em si.
O despertador tocou, José fez as contas e convenceu-se de que fizera as escolhas certas.
Foi trabalhar contente e tudo estava voltando a ter paz. Mas ele sabia que era por pouco tempo. Ele queria poder resolver essas equações de forma diferente, de eliminá-las, mas, para isso, ele sabia que precisaria ter o poder de sustentar suas escolhas... José queria esse poder, esse poder de paz.
Adormeceu cansado de tanto pensar. Acordou, tomou café, não refez as contas, sem saber o que o tocara para não refazer tais malefícios. Dormiu novamente. Acordou sentindo-se com certo poder. Trabalhou no escritório, escreveu crônicas em casa, namorou, divertiu-se.
Não! José não se livrou totalmente das equações, mas conseguiu caminhar pela vida com mais poder e menos Se.
Não! José não se livrou totalmente das equações, mas conseguiu caminhar pela vida com mais poder e menos Se.
quarta-feira, 15 de agosto de 2018
Revisita
Quarto aberto
café
dores
amores
vida
um suspiro de prazer
um prazer preestabelecido
desencontro
fadigas
reencontro
felicidade nos órgãos íntimos
desejo
desejo
escrita
trabalho
vida intensamente revisitada
domingo, 15 de abril de 2018
Vó Natalina!
Natalina Bagini Peron, uma mulher de vaidade guerreira! Facão na mão, palha tirada, café carpido. Suspiros selecionados, gargalhadas escancaradas. Dia certo para comprar a roupa de ver Deus, brincos adornando o rosto carregado de coragem.
Ah! A mulher que colocava à mesa todo seu carinho no colorau, que dava vida ao melhor macarrão, acompanhado com batatas e carne, exposto em uma grande panela. Logo depois dos almoços de domingo, aroma preto, forte, abraçando a doçura do bolo fofinho e a marca registrada da família: pão de chocolate.
As tradicionais festas somente se finalizavam depois de comermos arroz com ovos fritos pela Dona Natalina. E todos tinham o privilégio de escolher se a gema seria dura ou mole e de degustar esse mimo, que ela fazia com tanto carinho.
Os ausentes, nos horários em que as comidas eram servidas, ficavam tranquilos, pois sabiam que teriam seus pratos feitos e “escondidos” pelas mãos hábeis da matriarca.
Com todo esse amor, desfrutávamos, também, da pamonha, do milho assado, da canja de galinha, dos potinhos de plástico, resplandecendo o arroz, o feijão, o frango caipira.
Além dos prazeres proporcionados pelas comidas, a mãe, esposa, sogra, vó e bisavó, Natalina, abriu um caminho, tirando o mato, a tiririca, a fumaça, a poeira... mostrando a todos nós a estrada fincada nos livros, nas canetas, nos lápis.
Um "Deus te ‘bençoe’”... sempre foi força para seguir em um mundo aberto, trilhado pelo trator de quem desestabilizou cada moirão que sustentava os problemas da vida.
Agora ficamos todos com belas lembranças, grandes exemplos e imensa saudade!
terça-feira, 20 de março de 2018
“Ó morte, tu que és tão forte... Que matas o gato, o rato e o homem “
O título deste ensaio é parte do refrão da música “Canto para minha morte”, de Raul Seixas, e retrata a força que a morte tem na vida do ser humano. Um grande paradoxo... ou não... morte e vida...
Pensei em escrever aqui o que penso sobre a morte e, até mesmo, minha crença religiosa diante desse fato inevitável com o qual ninguém quer se deparar, porém resolvi escrever sobre duas obras de dois poetas, “Se eu morresse Amanhã!”, de Álvares de Azevedo, e “Clarisse”, de Renato
Renato Russo e Álvares de Azevedo estão entrelaçados em suas expressões. O poema “Se eu morresse amanhã!”, deste, e a canção “Clarisse”, daquele, apresentam traços melancólicos, assim como um profundo gosto pela morte.
Álvares de Azevedo provavelmente fora favorecido, em suas obras, pelo meio literário paulistano, impregnado de afetação byroniana, no que se diz respeito aos componentes de melancolia, sobretudo a previsão da morte, que parece tê-lo acompanhado como demônio familiar. Imitador da escola de Byron, Musset e Heine, tinha sempre à sua cabeceira os poemas desse trio de românticos por excelência, e ainda de Shakespeare, Dante e Goethe.
Proferiu as orações fúnebres por ocasião dos enterros de dois companheiros de escola, cujas mortes teriam enchido de presságios o seu espírito. Era de pouca vitalidade e de compleição delicada; o desconforto das "repúblicas" e o esforço intelectual minaram-lhe a saúde. Nas férias de 1851-52, manifestou-se a tuberculose pulmonar, agravada por tumor na fossa ilíaca, ocasionado por uma queda de cavalo, um mês antes. A dolorosa operação a que se submeteu não fez efeito. Faleceu às 17 horas do dia 25 de abril de 1852, em domingo da Ressurreição. Como quem anunciasse a própria morte, no mês anterior, escrevera a última poesia sob o título "Se eu morresse amanhã!", que foi lida, no dia do seu enterro, por Joaquim Manuel de Macedo.
Já a vida de Renato oscilava entre tristezas e alegrias. Por força de sua própria personalidade, Russo permanecia constantemente nas oscilações de tristezas. E sua morte também aconteceu no meio desse paradoxo.
O líder da Legião Urbana, depois de descobrir que estava com AIDS, isolou-se da vida, em seu apartamento, e recusava qualquer tipo de tratamento.
Renato desenvolveu uma espécie de anorexia e só conseguia tomar água de coco e, para piorar, deprimiu-se profundamente.
No dia de sua morte, disse a sua mãe: " Estou em paz, mãe. Tudo o que eu fiz de certo e de errado já conversei com Deus".(cf. Artur Dapieve, 2000, pag. 166)
“SE EU MORRESSE AMANHÃ!” E “CLARISSE”
Se eu morresse amanhã !
Se eu morresse amanhã, viria ao menos
fechar meus olhos minha triste irmã;
Minha mãe de saudades morreria
Se eu morresse amanhã !
Quanta glória pressinto em meu futuro,
Que aurora de porvir e que manhã !
Eu perdera chorando essas coroas
Se eu morresse amanhã !
Que sol ! que céu azul ! que doce n'alva
acorda a natureza mais louçã !
Não me batera tanto amor no peito
Se eu morresse amanhã !
Mas essa dor da vida que devora
A ânsia de glória, o dolorido afã...
A dor no peito emudecera ao menos
Se eu morresse amanhã !
Vamos analisar o que diz o poema:
Se eu morresse amanhã, viria ao menos
Fechar meus olhos minha triste irmã;
Minha mãe de saudades morreria
Se eu morresse amanhã !
A morte já se faz presente nos pensamentos do eu lírico. É como se ele fizesse um "balanço" de sua vida para, assim, verificar quem possuía considerações em relação a ele.
Não há preocupação e interesse com o mundo externo, pois a preocupação do eu lírico não é em relação à dor que sua irmã e sua mãe sentiriam se ele morresse, mas mostra que, para poucas pessoas, ele faz falta. Isso fica claro ao analisarmos a expressão "ao menos".
Segundo o dicionário Antônio Houaiss, "ao menos" significa entretanto, todavia e estas, conforme o mesmo dicionário, significam conjunções adversativas, que indicam ideias contrárias. Notamos que a morte do eu lírico não causaria dor a ninguém, mas sua mãe e sua irmã sofreriam por ele. Assim, o ego está praticamente desprovido de autoestima, o personagem não se considera importante.
Na segunda estrofe:
Quanta glória pressinto em meu futuro,
Que aurora de porvir e que manhã!
Eu perdera chorando essas coroas
Se eu morresse amanhã !
O eu lírico pressente um futuro claro e glorioso. Se o eu lírico morresse no dia seguinte, perderia tudo da vida, portanto choraria por não ter o que o faria feliz.
Com o uso do pretérito mais-que-perfeito “perdera”, fica claro que todo o futuro já foi perdido. A glória desejada será alcançada após a morte.
Conforme Prof. Pasquale Cipro Neto (Revista Cult 57, pag 23):
... o “perfeito” (do latim: “perfectu”) de nossos pretéritos (imperfeito/perfeito/mais-que-perfeito) significa até o fim, “feito completamente”, e vem do particípio de “perfazer”, em cuja formação entra o prefixo latino “perque”, no caso, indica ideia de conclusão...
O uso do pronome demonstrativo "essa" mostra que as coroas estão distantes do eu lírico. A aurora, a manhã, a glória, tudo isso está longe dele: é algo que ele perdeu na vida (passado) e pode encontrar na morte (futuro próximo).
Essa análise é possível, ao observarmos as definições de Celso Cunha para os valores dos pronomes demonstrativos. Afinal, “esses”, em relação ao tempo, refere-se a passado ou futuro pouco distante.
A terceira estrofe (" Que sol! Que céu azul! Que doce n'alva /Acorda a natureza mais louçã!/Não me batera tanto amor no peito / Se eu morresse amanhã!”) mostra muita certeza de que, ao morrer, o eu lírico encontrará a felicidade. O caminho da glória é representado por elementos da natureza. Nessa estrofe, é citado o amor como algo que já não acontece mais:
"Não me batera tanto amor no peito"
Já nos dois primeiros versos da 4 ª estrofe; notamos que acontece a perda da capacidade de amar.
Mas essa dor da vida que devora
A ânsia de glória, o dolorido afã...
O eu lírico refere-se à dor que consome sua vida. Por meio da oração adjetiva restritiva que devora a ânsia de glória, o dolorido afã, nota-se que existem várias dores de viver, mas a que ele sente devora, acaba com as possibilidades de felicidade.
Nos dois últimos versos da estrofe “A dor no peito emudecera / Se eu morresse amanhã!", notamos que, para a felicidade do eu lírico, é necessário que a morte física o consuma, pois a morte psicológica já aconteceu: a dor no peito emudecera (já está morto interiormente), agora, precisa morrer fisicamente, para que realmente a dor não o incomode mais.
O eu lírico é um ser melancólico, pois demonstra uma tristeza profunda, revelando que o motivo de sua tristeza é a doença do seu próprio ego, pois não é revelada nenhuma perda concreta que desencadeie tanta dor e sofrimento.
Existe uma cessação de interesse pelo mundo externo, o egocentrismo é muito marcante e a fuga da realidade, por meio da morte, é constante.
Vejamos, a seguir, a letra da música Clarisse, de Renato Russo.
Estou cansado de ser vilipendiado, incompreendido e descartado
Quem diz que me entende nunca quis saber
Aquele menino foi internado numa clínica
Dizem que por falta de atenção dos amigos, das lembranças
Dos sonhos que se configuram tristes e inertes
Como uma ampulheta imóvel, não se mexe, não se move, não trabalha
E Clarisse está trancada no banheiro
E faz marcas no seu corpo com seu pequeno canivete
Deitada no canto, seus tornozelos sangram
E a dor é menor do que parece
Quando ela se corta ela esquece
Que é impossível ter da vida calma e força
Viver em dor, o que ninguém entende
Tentar ser forte a todo e cada amanhecer
Uma de suas amigas já se foi
Quando mais uma ocorrência policial
Ninguém entende, não me olhe assim
Com este semblante de bom samaritano
Cumprindo o seu dever, como se fosse doente
Como se toda essa dor fosse diferente, ou inexistente
Nada existe pra mim, não tente
Você não sabe e não entende
E quando os anti-depressivos e os calmantes não fazem mais efeito
Clarisse sabe que a loucura está presente
E sente a essência estranha do que é a morte
Mas esse vazio ela conhece muito bem
De quando em quando é um novo tratamento
Mas o mundo continua sempre o mesmo
O medo de voltar pra casa à noite
Os homens que se esfregam nojentos
No caminho de ida e volta da escola
A falta de esperança e o tormento
De saber que nada é justo e pouco é certo
E que estamos destruindo o futuro
E que a maldade anda sempre aqui por perto
A violência e a injustiça que existe
Contra todas as meninas e mulheres
Um mundo onde a verdade é o avesso
E a alegria já não tem mais endereço
Clarisse está trancada em seu quarto
Com seus discos e seus livros, seu descanso
Eu sou um pássaro
Me trancam na gaiola
E esperam que eu cante como antes
Me trancam na gaiola
Mas um dia eu consigo existir
E vou voar pelo caminho mais bonito
Clarisse só tem 14 anos
De acordo com uma entrevista de Dado Villa-Lobos, exibida na internet, esta é uma canção autobiográfica (Internet, http://legiao-urbana.com.br/p.2)
“Estou cansado de ser vilipendiado, incompreendido e descartado
Quem diz que me entende nunca quis saber
Aquele menino foi internado numa clínica
Dizem que por falta de atenção dos amigos, das lembranças
Dos sonhos que se configuram tristes e inertes
Como uma ampulheta imóvel, não se mexe, não se move, não trabalha”
Nessa estrofe, o eu lírico mostra-se cansado do mundo que o cerca. Não acredita mais nas pessoas e cita um menino o qual, por falta de atenção dos amigos, foi internado em uma clínica.
Este menino traz consigo as consequências da melancolia (como uma ampulheta imóvel, não se mexe, não se move, não trabalha), ele perde todo o desejo pela vida e torna-se uma pessoa sem ação, ele apenas está vivo fisicamente, não vive, não exerce suas atividades.
Toda a tristeza sentida pelo eu lírico é atribuída à ausência de atenção das pessoas que o rodeiam.
Existe uma diminuição da autoestima, pois, segundo o eu lírico, as pessoas próximas dele não lhe dão importância, ele se considera um ser não merecedor de atenção.
E Clarisse está trancada no banheiro
E faz marcas no seu corpo com seu pequeno canivete
Deitada no canto, seus tornozelos sangram
E a dor é menor do que parece
Quando ela se corta ela esquece
Que é impossível ter da vida calma e força
Viver em dor, o que ninguém entende
Tentar ser forte a todo e cada amanhecer
Nessa estrofe aparece uma personagem chamada Clarisse. Esta, por meio da tentativa de suicídio, procura fugir das dores da realidade. Ela corta os próprios tornozelos com um canivete e a dor física é o remédio para a dor psicológica. Clarisse é uma pessoa perturbada, não possui a calma necessária para viver, a sua força já foi perdida, portanto ela busca, na morte, a própria realização. A sua vida é cheia de dor e ninguém consegue entender o quanto é difícil ser forte a cada dia, carregando no peito a dor vivente.
Uma de suas amigas já se foi
Quando mais uma ocorrência policial
Ninguém entende, não me olhe assim
Nesses três versos, é mostrado que uma das amigas da personagem Clarisse já morreu, depois é feita uma alusão à polícia, dando a entender que existe algo ilegal no seu círculo de amizades.
Ninguém entende, não me olhe assim
Com este semblante de bom samaritano
Cumprindo o seu dever, como se fosse doente
Como se toda essa dor fosse diferente, ou inexistente
O eu lírico aparece novamente, mostrando a sua descrença em relação às pessoas, ele não acredita que outros seres humanos possam ter compaixão por ele, e os ataca:
não me olhe assim com este olhar de bom samaritano
A ironia está presente neste ataque ao “outro”, em que é relatado que a pessoa apenas finge estar preocupada com o eu lírico, mas não faz nada para ajudá-lo.
O egocentrismo é marcado fortemente, pois o eu lírico julga-se o único ser que possui essa dor, como se ninguém houvesse sentido antes e, assim, é impossível que alguém o entenda. Ele se preocupa apenas com a própria dor. Está voltado para o próprio ego, formando um escudo entre si e o mundo.
E quando os antidepressivos e os calmantes não fazem mais efeito
Clarisse sabe que a loucura está presente
E sente a essência estranha do que é a morte
Mas as e vazio ela conhece muito bem
Clarisse “surge” novamente e é feita uma referência às drogas (antidepressivos e calmantes).
Quando Clarisse está lúcida, a essência da morte apodera-se de sua alma como algo misterioso e esse mistério é algo a ser desvendado quando a morte realmente a consumir por completo.
A morte é citada como um vazio e Clarisse conhece isso muito bem, porque sua própria vida é vazia.
De quando em quando é um novo tratamento
Mas o mundo continua sempre o mesmo
O medo de voltar pra casa à noite
Os homens que se esfregam nojentos
No caminho de ida e volta da escola
A falta de esperança e o tormento
De saber que nada é justo e pouco é certo
E que estamos destruindo o futuro
E que a maldade anda sempre aqui por perto
A violência e a injustiça que existe
Contra todas as meninas e mulheres
Um mundo onde a verdade é o avesso
E a alegria já não tem mais endereço
Clarisse está trancada em seu quarto
Com seus discos e seus livros, seu descanso
Nota-se que Clarisse passa por vários tratamentos para tentar recuperar-se, mas tudo isso é inútil, pois o mundo continua o mesmo.
Conforme Angélica Castilho e Érica Schlude, na obra Depois do fim, 2002 :
Em Clarisse (9º álbum), a consciência das perversidades do mundo torna uma adolescente de quatorze anos em um eu lírico profundamente incompreendido, gauche , e autodestrutivo: " E Clarisse está trancada no banheiro / E faz marcas no seu corpo com seu pequeno canivete/ Deitada no canto, seus tornozelos sangram / E a dor é menor do que parece.(2002, pg. 144)
Clarisse é extremamente contra o mundo que se apresenta a ela, mas não existe nada claro do que realmente a faz tão perturbada e constantemente em busca da morte. A personagem não tenta recuperar-se de toda essa dor, portanto notamos que o problema está consigo, porque não tem forças para conseguir sobreviver com os problemas da vida.
Eu sou um pássaro
Me trancam na gaiola
E esperam que eu cante como antes
Me trancam na gaiola
Mas um dia eu consigo existir
E vou voar pelo caminho mais bonito
Clarisse só tem 14 anos
Aqui, o eu lírico reaparece mostrando que se sente preso, mas vai conseguir libertar-se, de toda a dor do mundo através da morte. A vida é a prisão em que ele vive, morrendo, encontrará a liberdade.
O eu lírico do poema de Álvares de Azevedo mostra-nos profunda adoração pela morte. Ele, assim como Clarisse (“personagem” da música de Renato Russo), sente-se infeliz e inconformado com a vida, pois não consegue felicidade plena.
Em determinado momento da canção de Russo, Clarisse mostra que conhece muito bem o vazio causado pela morte, o eu lírico de “Se eu morresse amanhã!” também, pois, mesmo estando vivo fisicamente, ele retrata a sua afinidade com a morte.
Na canção de Renato Russo temos, além de Clarisse, um eu lírico, o qual também é alguém que busca a morte como “remédio” para as suas tristezas.
A melancolia marca fortemente essas obras, principalmente, por estas não apresentarem perdas concretas para suas vozes poéticas e suas personagens, que têm dor tão grande e obsessão pela morte.
terça-feira, 13 de março de 2018
Os anos passam e a saudade aumenta, Flor de LiZZZZ!
Nos conhecemos num encontro entre amigos e com muita bebida... Você chegou, se apresentou e eu não entendi seu nome... entendi alguma coisa com "is"... Então, te nomeei Flor de Lis... Na nossa primeira conversa pelo MSN, te chamei de Flor de Lis e você: LiZ com ZZZZZ, por favor... que se foda a gramática. E passou a ser a Flor de Liz com Z, marrenta, briguenta, amável, brincalhona, companheira de copo, implicante com o cigarro, uma grande amiga.
Nosso último encontro foi na sua casa, numa tarde, regado a café... você já trêmula, em razão da medicação, mas alegre, forte e marrenta rs... fez um café, com 260 colheres de pó e ainda "tirou onda": "Uai, não é você que gosta de café forte, Li?" rs...
Conversamos sobre sua doença, sobre as brigas com o plano de saúde, sobre a sua força, suas dores e, na sua face, transparecia a certeza de que logo partiria, na certeza de que cumpriu seu papel por aqui.
Há alguns anos, você está enterrada pertinho do meu lar. As árvores do Bom Pastor tão belas, tão admiradas por mim, ficaram difíceis de ser encaradas. Olho pela janela do meu quarto e dói saber que uma daquelas árvores, que deixam meu apartamento mais fresco, faz sombra no seu túmulo.
E me pego imaginando você brigando com todo mundo pelo cemitério e botando energia em todos.
Quanta saudade, minha Flor de LiZ!
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