quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026
O preço que pago por não ter uma testemunha biológica da minha luta
O relógio digital marcava 3:00 da manhã, um brilho neon que parecia perfurar a retina exausta de Clarice. Ela fechou o notebook, o silêncio do apartamento pesando como chumbo, mas sua mente continuava em uma rotação frenética e injusta. Por que, pensou ela, o meu esgotamento sempre precisa de uma nota de rodapé ou de um pedido de desculpas? Se eu tivesse um berço no quarto ao lado, meu cansaço seria sagrado, uma medalha de honra, algo compartilhado com suspiros de solidariedade no café da firma.
Mas como sou "apenas eu", a fadiga é vista como má gestão de tempo ou um luxo de quem não tem "obrigações de verdade". É como se o vazio do meu útero invalidasse o peso das minhas olheiras, como se o direito ao repouso fosse uma concessão exclusiva à linhagem biológica. "Você não sabe o que é cansaço de verdade", diziam as vozes veladas, enquanto ela assumia as demandas de quem precisava sair cedo para a escola ou para a febre noturna.
Quem não tem filhos é condenada ao papel de pilar invisível, a peça de reposição que nunca quebra, a reserva infinita de energia que não pode reclamar porque, afinal, "você só cuida de si". Mas quem cuida de quem cuida apenas de si quando o corpo implora por trégua? O cansaço dela não tinha um rosto de criança para justificá-lo, era apenas um cansaço cru, seco, uma exaustão de quem carrega o mundo nas costas para que outros possam carregar seus filhos. Clarice apagou a luz, questionando se a humanidade do seu cansaço algum dia seria reconhecida sem precisar de uma certidão de nascimento de um filho para legitimá-la.
O silêncio do apartamento, antes um refúgio, agora parecia um tribunal. Clarice sentia o latejar das têmporas em sincronia com o cursor invisível que ainda piscava em sua mente. Ela se deitou, mas os lençóis pareciam ásperos, como se a própria cama questionasse seu direito de estar ali, estática, sem uma razão "nobre" para o despertar súbito.
O pensamento de Clarice derivou para a reunião de amanhã. Ela já sabia o roteiro: aceitaria o prazo mais curto, cobriria o turno de fim de semana de Roberto — cujo filho teria um campeonato de judô — e sorriria com aquela compreensão automática que se espera de quem "tem tempo de sobra".
Na lógica corporativa e social, o tempo de Clarice era visto como um recurso não renovável, uma commodity a ser minerada até o esgotamento em prol do equilíbrio alheio.
Ao se levantar para beber um copo d'água, o reflexo no espelho do corredor a deteve. As olheiras não mentiam, mas não carregavam a narrativa de uma "mãe heroína". Eram apenas marcas de uma mulher que:
• Sustentava projetos inteiros sozinha para não sobrecarregar quem "tem família".
• Ouvia desabafos sobre noites mal dormidas enquanto silenciava sua própria insônia crônica.
• Era o "porto seguro" de amigos e parentes, a pessoa que sempre pode atender o telefone porque, teoricamente, não tem nada mais importante fazendo.
"A solidão do esforço," murmurou ela para o vidro frio, "é o preço que pago por não ter uma testemunha biológica da minha luta."
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