Uma redenção aconteceu...
Apesar disso, sente-se livre e belo, bem, bem visto no sentido de desejado. O término o deu a dor da descoberta.
O sofrimento foi profundo, profano, devastou-o tanto que o desejo realizou-se: mostrar-se como homem com alguém, ou sem alguém.
Riu dos próprios tropeços e buscou a redução do medo.
Tem vontade de agradecê-la por cada agressão após o fim do relacionamento, pois somente assim rasgou-se e seu corpo ficou à mercê.
O rasgar da dor, a dor do rasgar eminentes e iminentes o levaram ao que uma mulher como ela jamais admitiria: sempre suprira o parceiro da forma mais sutil.
As estrelas tão acariciadas lhe organizam o corpo, a alma o cérebro.
Alguém ou alguéns... não importa!
Orgasmizar-se leva à sobrevivência!
segunda-feira, 5 de junho de 2017
terça-feira, 16 de maio de 2017
Feijoada com galinhada
A bagunça estava posta à mesa.
__ A Maria do fulano morreu, você sabe? Eu fui no velório, mas não passei a noite, nem fui no enterro.
__ A fia do tal que morava lá embaixo separou.
__ Nossa! A festa tava ótima, eles me adoraram.
__ Agora vou contar uma fofoca forte.
__ Eeee, e aí? Tudo bão?
Eram vários assuntos ao mesmo tempo; muitas vezes, nem dava para assimilar quase nada, mas o objetivo era falar e escutar, entender era para outra instância ou família. Ali a fala era desculpa para se trocar carinho. A galinhada também... desculpa e entrelaçamento de vidas e histórias cortadas ou continuadas.
Pratos e os copos cheios. E a boca da vó materna vazia de dentes, mas transbordada de um riso sem tamanho, sem entendimento e reconhecimento do que estava acontecendo por ali e da fisionomia de todos os extremamente conhecidos-estranhos.
Acaba-se o domingo, nessa bagunça parecida com uma gaveta organizada e cheirosa.
Segunda-feira
Visita rápida às tia, prima, amiga queridas.
__Pega feijoada, fia, pega no prato fundo, no prato raso não cabe nada.
__Tô escutano, no rádio, o fulano falar mal do prefeito. Nóóó, hoje ele sai preso.
__Pega mais feijoada. Come esse jiló curtido.
__Qué cerveja?
__Cê viu o Lula? Mas eu achei bão. Ninguém acaba com ele, não. Nóóó, mas eu gosto do Lula.
__Qué mais jiló?
__Qué suco?
À mesa, um amor incondicional pelo primo que estava a sua frente, primo e afilhado; ao seu lado estavam as primas e afilhadas amadas com o mesmo amor dispensado ao primo e ao padrinho.
Barriga lotada, mas com espaço para sentir a vó paterna dizendo: Come mais, tira mais comida. Viver sem ela, nunca será fácil, apenas suportável.
Um carinho no gato, que também ama a vó.
Casa da mãe, um pouco de TV, prosa com ela e a prima afilhada. Um saco de salgadinho com sal da infância. E a notícia de que ganharia a cafeteira vermelha tão desejada.
Estrada.
Terça-feira
Um café, um cigarro para começar o dia e manter o gosto da galinhada e da feijoada.
__ A Maria do fulano morreu, você sabe? Eu fui no velório, mas não passei a noite, nem fui no enterro.
__ A fia do tal que morava lá embaixo separou.
__ Nossa! A festa tava ótima, eles me adoraram.
__ Agora vou contar uma fofoca forte.
__ Eeee, e aí? Tudo bão?
Eram vários assuntos ao mesmo tempo; muitas vezes, nem dava para assimilar quase nada, mas o objetivo era falar e escutar, entender era para outra instância ou família. Ali a fala era desculpa para se trocar carinho. A galinhada também... desculpa e entrelaçamento de vidas e histórias cortadas ou continuadas.
Pratos e os copos cheios. E a boca da vó materna vazia de dentes, mas transbordada de um riso sem tamanho, sem entendimento e reconhecimento do que estava acontecendo por ali e da fisionomia de todos os extremamente conhecidos-estranhos.
Acaba-se o domingo, nessa bagunça parecida com uma gaveta organizada e cheirosa.
Segunda-feira
Visita rápida às tia, prima, amiga queridas.
__Pega feijoada, fia, pega no prato fundo, no prato raso não cabe nada.
__Tô escutano, no rádio, o fulano falar mal do prefeito. Nóóó, hoje ele sai preso.
__Pega mais feijoada. Come esse jiló curtido.
__Qué cerveja?
__Cê viu o Lula? Mas eu achei bão. Ninguém acaba com ele, não. Nóóó, mas eu gosto do Lula.
__Qué mais jiló?
__Qué suco?
À mesa, um amor incondicional pelo primo que estava a sua frente, primo e afilhado; ao seu lado estavam as primas e afilhadas amadas com o mesmo amor dispensado ao primo e ao padrinho.
Barriga lotada, mas com espaço para sentir a vó paterna dizendo: Come mais, tira mais comida. Viver sem ela, nunca será fácil, apenas suportável.
Um carinho no gato, que também ama a vó.
Casa da mãe, um pouco de TV, prosa com ela e a prima afilhada. Um saco de salgadinho com sal da infância. E a notícia de que ganharia a cafeteira vermelha tão desejada.
Estrada.
Terça-feira
Um café, um cigarro para começar o dia e manter o gosto da galinhada e da feijoada.
terça-feira, 28 de fevereiro de 2017
Cordas vocais arrancadas
Uma voz agredida tantas vezes
Um silêncio
Sempre amputado
Uma batalha para ser fora
Estar dentro do que deseja
Voz agredida
Xingada
E espancada
Exigência de usar as cordas vocais apenas para assuntos bons
Não usá-las para lutas e argumentações
Muito menos para respostas
Usar a voz para o outro ouvi-la, crime
Cordas vocais descredenciadas e incriminadas
Uma voz agredida tantas vezes
Um silêncio
Aceito
Arranque sem anestesia
Para que as cordas sintam o quanto foram vocais fortes até agora
E que a fortaleza da luta acaba
sábado, 29 de outubro de 2016
Enigma
Os pesadelos pululavam e a colocavam
numa vida quase real. Aos doze anos, Dora passou um perfume, o primeiro de sua
vida. E o pai disse que ela estava com cheiro de puta amanhecida. A menina não
sabia exatamente o que era uma puta, mas, pelo tom de voz do pai e pelas vezes
que usou esse vocábulo como xingamento, entendeu que não se tratava de algo
bom.
De repente estava amarrada em uma
cama de hospital. Sentiu sede, pediu água para o enfermeiro. Ele se aproximou
com um copo de plástico e jogou a água na cara dela. A cena mudou rapidamente e Dora se viu em um corredor sendo estuprada. Tentava, sabe-se lá
como, sair do pesadelo, no entanto não tinha forças para fugir do estuprador e
nem para acordar.
A força que a movia no pesadelo era
apenas para mudar as cenas. Passou para o lugar onde estava no momento. A
noite tinha sido de muita mágoa e muito
choro. No amanhecer, Fred, seu companheiro, a acariciou, buscando sexo. Ela não
queria. Ele masturbou-se e ejaculou nela. Dora sentiu a sua dor crescer e as
forças para acordar cada vez minguavam mais. Sentou-se na cama porque a mãe a
acordara para bater nela, pois havia descoberto um caderno em que Dora relatava
seu interesse por um moço que estava morando, há pouco tempo, no bairro onde
ela morava.
Acordou, coração acelerado, choro,
cama demasiadamente grande. Trêmula, levantou-se para tomar água. A água tinha
gosto de carniça, pois havia se misturado com o sangue que ainda estava na boca
de Dora.
A dor no peito era insuportável,
começou a vomitar sangue novamente. O companheiro, que acabara de chegar em
casa, não viu necessidade de levá-la a um hospital. Dora não conseguia
entender, pois, em outras vezes, ele a havia socorrido.
Uma amiga passou a tarde com ela em um Pronto Socorro.
Quando Dora estava em casa novamente,
sentiu pânico, chorou, chorou, não havia como arrancar a dor que sentia. O
choro era insuficiente. Pensou em recorrer à escrita, mas a angústia aumentava
e sentia medo de apanhar do papel e da caneta.
Começou a se lembrar de quando
frequentava as aulas de crisma. O palestrante dissera que um verdadeiro cristão
nunca se sentia triste. Dora sempre perambulava no mundo da tristeza, então não
podia ser cristã. Nessa aula, achou que a sua infelicidade pudesse ser castigo.
Quando criança, morria de medo de Deus. Na pré-adolescência, quando cursava o
catecismo, não gostou quando a professora disse: Vocês podem duvidar de tudo,
até dos livros da escola, mas não podem duvidar da Bíblia. Nesse dia, Dora fora
para casa pisando o fogo do inferno. Gostava mais dos livros da escola do que
da Bíblia. Essa obra lhe causava angústia.
O choro voltou com muita força,
sentia-se culpada por ser ela, mas nem sabia quem era. Porém, achava que
deveria ter sido o que a família, o companheiro, a Bíblia e Deus esperaram
dela.
Agora não havia mais jeito, não
conseguia desfazer a dor e, muito menos, a descrença e o medo que sentia da
vida.
Dora sempre cortejara a dor e a
morte. Na adolescência, fazia parte do grupo que ouvia músicas que desenhavam a
tristeza, adentravam nessas letras. Possuía um amigo que, como ela, gostava dos
autores malditos, conversavam sobre as obras, escreviam poemas. Não viam beleza
na vida cotidiana. A maravilha estava lá: nos autores que mexiam em todos os
órgãos não corporais do leitor.
Um suspiro. Saudade. Dor. Dúvida.
O choro voltou ainda mais forte.
Lembrou-se de todos os amores que havia tido até o momento, parecia sentir na
pele as cintadas por causa do caderno que a denunciou à mãe. A dor no peito
voltou, o mundo estava desabando novamente. Agora também doía a barriga. Dora
tinha um feto dentro de si, mas duvidava se seria digno colocar alguém num
mundo em que ela não dava conta.
A dor no peito aumentou, a da alma
era maior. Deixou o peito e o útero doerem, desejava que a dor fosse ainda
maior, para que a sua angústia fosse amenizada.
Começou a sangrar. Da boca, saía uma
gosma. Quando o marido de Dora chegou, ela estava morta.
Ele comunicou a família. Não
compareceu ao velório e ao enterro.
Não se sabe se ele chorou a morte da
companheira e a do feto.
domingo, 2 de outubro de 2016
Sem ensinar, a vó Tunica me ensinou o que é o amor
Oi, vó, bença. Nunca ficamos tanto tempo assim sem nos ver, né? Mais de um ano. E ficaremos muito mais.
Estava mexendo na caixa em que guardo o RG do meu pai, o isqueiro do vô Peron e um lenço da senhora. Ah, o seu cheiro, Tuniquinha, está nele. Chorei tanto de saudade da senhora.
Ouvi sua voz dizendo: Lianinha, pra tudo nessa vida se dá um jeito. Mas ouvir apenas na lembrança não me acalma totalmente.
Eu queria chegar aí na sua casa, ver seu rosto meigo, calmo e ouvir a senhora dizendo que toda noite reza por todos nós.
Ah! Meus dias têm sido movidos pela senhora. Para levantar-me da cama, penso: O que a vó Tunica faria para enfrentar esses problemas? Sei que uma das coisas seria rezar. Então, rezo. Para falar a verdade, vó, o que me move é saber o que a senhora faria no meu lugar e não é, propriamente, a oração que me bota de pé.
Hoje eu estava tomando banho e lembrei-me de quando tinha um sapo no quintal, eu e o Denim começamos a gritar de medo. E lá veio a senhora com uma vassoura nos defender do ser asqueroso. Estou tendo de lutar com alguns sapos, vó. Queria que a senhora estivesse aqui com aquela vassoura para me defender. A senhora não está, mas ainda me protege.
A senhora se lembra do Lulu? Cachorrinho companheiro, né? E as plantas que a senhora tinha? Lembro-me sempre dos cipós. Não sei se existe outro nome para essa planta, mas, para mim, sempre que vejo uma, digo: Cipozinho da vó Tunica.
Ai, Tuniquinha, às vezes, sinto pena de quem não teve uma vó Tunica.
Lembra-se de quando a senhora pedia para eu escrever cartas para a tia Luzia de São Paulo? Eu achava tão chique: minha letra com as palavras da senhora estavam indo para a capital.
Lembro-me da senhora dizendo: É, minha cara, nessa vida a gente tem que engolir o boi com chifre e tudo.
Certa vez, tentaram "quebrar" essa sua frase, dizendo-me que, picar o boi e transformá-lo em bifes, fica mais fácil.
Inútil. Nada supera a sabedoria da senhora. Engolir o boi com chifre e tudo faz a digestão ser mais dolorosa, mas a gente fica mais forte.
Eu ainda não acredito que a senhora morreu. Mais de um ano e a dor não passa. É como as dores que a senhora sentia nos ossos. Às vezes davam uma trégua.
Eu queria ver a senhora e contar tudo o que está acontecendo na minha vida e ouvir a sua calma voz, dizendo: Pra tudo nessa vida se dá um jeito. A sua voz, sim, me fortaleceria.
Depois escrevo mais para relembrarmos juntas da importância que a senhora tem na minha vida.
A senhora me ensinou o que é o amor, sem ensinar.
Tchau, vó, bença.
Estava mexendo na caixa em que guardo o RG do meu pai, o isqueiro do vô Peron e um lenço da senhora. Ah, o seu cheiro, Tuniquinha, está nele. Chorei tanto de saudade da senhora.
Ouvi sua voz dizendo: Lianinha, pra tudo nessa vida se dá um jeito. Mas ouvir apenas na lembrança não me acalma totalmente.
Eu queria chegar aí na sua casa, ver seu rosto meigo, calmo e ouvir a senhora dizendo que toda noite reza por todos nós.
Ah! Meus dias têm sido movidos pela senhora. Para levantar-me da cama, penso: O que a vó Tunica faria para enfrentar esses problemas? Sei que uma das coisas seria rezar. Então, rezo. Para falar a verdade, vó, o que me move é saber o que a senhora faria no meu lugar e não é, propriamente, a oração que me bota de pé.
Hoje eu estava tomando banho e lembrei-me de quando tinha um sapo no quintal, eu e o Denim começamos a gritar de medo. E lá veio a senhora com uma vassoura nos defender do ser asqueroso. Estou tendo de lutar com alguns sapos, vó. Queria que a senhora estivesse aqui com aquela vassoura para me defender. A senhora não está, mas ainda me protege.
A senhora se lembra do Lulu? Cachorrinho companheiro, né? E as plantas que a senhora tinha? Lembro-me sempre dos cipós. Não sei se existe outro nome para essa planta, mas, para mim, sempre que vejo uma, digo: Cipozinho da vó Tunica.
Ai, Tuniquinha, às vezes, sinto pena de quem não teve uma vó Tunica.
Lembra-se de quando a senhora pedia para eu escrever cartas para a tia Luzia de São Paulo? Eu achava tão chique: minha letra com as palavras da senhora estavam indo para a capital.
Lembro-me da senhora dizendo: É, minha cara, nessa vida a gente tem que engolir o boi com chifre e tudo.
Certa vez, tentaram "quebrar" essa sua frase, dizendo-me que, picar o boi e transformá-lo em bifes, fica mais fácil.
Inútil. Nada supera a sabedoria da senhora. Engolir o boi com chifre e tudo faz a digestão ser mais dolorosa, mas a gente fica mais forte.
Eu ainda não acredito que a senhora morreu. Mais de um ano e a dor não passa. É como as dores que a senhora sentia nos ossos. Às vezes davam uma trégua.
Eu queria ver a senhora e contar tudo o que está acontecendo na minha vida e ouvir a sua calma voz, dizendo: Pra tudo nessa vida se dá um jeito. A sua voz, sim, me fortaleceria.
Depois escrevo mais para relembrarmos juntas da importância que a senhora tem na minha vida.
A senhora me ensinou o que é o amor, sem ensinar.
Tchau, vó, bença.
sexta-feira, 15 de abril de 2016
Odores de pedra
Maria Flor nascera num ambiente em que nunca fora desejada. Perambulou durante os nove meses na barriga da mãe, sendo marcada pelas palavras impostas em sua casa.
Quando o nascimento ocorreu, foi recebida por uma avalanche de não existir, embrenhou-se em uma guerra pela sobrevivência e adaptação. Perpassada por significantes desastrosos, lutava para entender que o bem-estar existia.
Em uma tarde ensolarada, dia de seu aniversário de dez anos, foi cumprimentada pelo seu primo. Sentiu tanta tristeza, não controlou o choro.
Escreveu em um caderno que estava triste e, como sempre, não sabia o motivo.
Cresceu com as desgraças vomitadas a todo momento, mas tinha algo que a movia para buscar um outro caminho. Talvez fosse Deus, mas preferia acreditar que era a avó, mulher sábia e amável, mas esta mostrava para Maria que era Deus o criador de tudo e que esse ser sagrado não abandonava sua criação, se esta lhe prestasse obediência, sem questionar seus mistérios.
O que seria um abandono de Deus? Ficar triste como Maria estava sempre?
Maria tinha medo de ir para o inferno, tentava fazer tudo de acordo com as leis de Deus para ganhar o céu. Embora sentisse certa desconfiança dessa tese, preferia não arriscar.
Quando os doze anos visitaram Maria, a encontraram perturbada e não havia com quem dividir a tal perturbação. As palavras existiam para quem tinha a permissão de proliferá-las. Para Maria, o seu corpo era a própria palavra, uma palavra invadida, forçosamente invadida por um pênis. Seus gritos de dor e socorro eram abafados pela mão do que a julgava merecedora daquela invasão.
Os mais profanos e angustiantes vocábulos fizeram-se presentes dentro dos órgãos de maria Flor.
Falar sobre? Jamais. Era mulher e mulher tinha de se comportar, caso contrário merecia ser agressivamente invadida. Era culpada, mas não entendia o que era se comportar. Talvez fosse ficar trancafiada em casa.
Depois de um tempo, o acontecimento desapareceu. Não lembrava mais disso. Somente carregava a dor ainda mais intensificada.
Maria Flor encontrou, na vida adulta, um ferrenho medo da perda e da dor. Era estranho sentir medo do sofrimento, pois vivia nele constantemente. Como sentir medo de estar onde sempre esteve?
Quando se descobriu grávida, alegrou-se e desesperou-se. Nunca achou a vida natural. Via como uma agressão obrigar um ser a estar no mundo. E ela estava fazendo o mesmo que fizeram com ela. Resolveu emprestar seu corpo para ser fruto da mais desnaturalizada das coisas: dar ao mundo um filho, ou dar um filho a um mundo. Será que este ser queria a vida?
O nono mês de gravidez encontrou Maria Flor espancada por lembranças. Num domingo ensolarado, a gestante esbravejou recordações, tomando a voz de seu pai, que havia morrido há anos:
Cheguei do trabalho junto com minha esposa, tomei banho, alguns
tragos no cigarro e na pinga e saí. O bar próximo de casa aglutinava amigos,
mulheres, baralhos, cerveja e cachaça. Eu sempre traía minha esposa com putas e
não putas. As que recebiam a segunda nomeação tinham família. Naquela noite,
tudo transcorria normalmente até que resolvi brigar no boteco. Não sei por que
usei a palavra “resolvi”, pois minhas brigas e agressões nunca se tratavam de
uma resolução. Gritei, esbravejei, xinguei, bati, apanhei e saí sem pagar a
conta, para outro recinto. Já estava embriagado e meu ódio aparecia e aumentava
toda vez que o álcool possuía meu corpo. Não! O álcool não era meu inimigo e
nem vilão, era um parceiro quase inseparável, ele me deixava do jeito que eu
queria que ele me deixasse; sem ele, eu era apenas um trabalhador tolhido pela
dor. Quanto ao meu ódio, não sei seu remetente verdadeiro, sei apenas que eu o
enviava às pessoas queridas. Será que meu ódio era meu bem mais precioso?
Voltemos à cena do segundo bar da noite. Bebi, briguei, agredi e fui agredido.
Voltei para casa de madrugada, esmurrei a porta da cozinha, Geórgia a
destrancou, continuei esmurrando e comecei a gritar: Abre, puta desgraçada,
hoje eu te mato. Minha filha, sonolenta, ouviu gritos ao fundo que se
misturaram com seus sonhos. Acordou assustada, quando a mãe entrou no quarto
dela. –– Seu pai está bêbado, esmurrando a porta... –– Você não vai abrir? ––
Já abri. Cansei de dar murros, entrei na cozinha, peguei uma faca fui para meu
quarto. A desgraçada não estava lá... –– Agora eu vou matar vocês duas. As
pobres coitadas estavam trancadas no quarto de minha filha. Um pontapé abriria
aquela porta, mas não dei o pontapé. Fiquei batendo na porta e gritando o ato
que eu queria cometer. Geórgia olhou pelo espaço que havia entre a porta e o
portal e viu a faca em minha mão, convocou a filha para pularem a janela.
Pediram socorro na casa de parentes. A polícia foi acionada. Antes de a polícia
chegar, a porta do quarto se abriu com os meus socos. As desgraçadas tinham
fugido. Joguei colchão, enfeites, panelas, cadeiras pelo chão da casa toda. Me
dirigi, cambaleante, até o quintal e, embaixo do pé de mexerica, soltei uivos
de ódio. A vizinha ficou me olhando assustada por cima do muro. Foi merecedora
do meu ódio também. Algemado, fui levado para a delegacia, onde passei o resto
da madrugada. Logo pela manhã, fui solto. Fui ao barbeiro, em seguida, ao bar.
Voltei para casa, e as caras de assombro e medo de Geórgia e de minha filha
eram perceptíveis de longe. Perguntei para minha filha quem havia chamado a
polícia, ela disse que não sabia. –– Manda o desgraçado que chamou a polícia
vir me enfrentar sem eu estar com algemas. Xinguei Geórgia, minha filha e o
cunhado que acabara de chegar. Mais uma vez, saíram fugidas de casa. Passou-se
uma semana e eu não sabia para onde tinham ido. Voltaram, mas acompanhadas pela
polícia para retirarem suas roupas. Eu quis agredi-las, mas, quando vi o
policial, estoquei minha agressividade para ser liberada em outro momento. Acho
que o guarda não merecia meu ódio. Dias depois fui avisado que deveria deixar a
casa. Eu ajudei a erguer aquelas
paredes, que guardavam dores, mas foram casulos de alguns momentos que não pesam
na minha recordação... –– Ah, a vida é uma festa... Cantou minha filha, ainda
pequena, quando a casa estava tomada por pedreiros, cimento, sujeira e muito
cansaço. Olhei para ela, que estremeceu de medo, soltei uma gargalhada. Contei
várias vezes essa história entre os amigos de boteco... eu não tinha muitas
outras parecidas.
Eu sempre tive histórias desastrosas para contar como esta: Num domingo à
tarde, minha filha, adolescente, estava estudando na sala, Geórgia havia ido
para a casa da mãe. Mandei a filha pegar o rádio e ligá-lo para mim na varanda,
pedi um lápis para ela e, tomando pinga, ouvindo música, escrevi um bilhete
como se outro homem tivesse escrito para minha esposa. “Geórgia, te encontro
hoje no mesmo lugar. Beijo do seu homem.” Em seguida, mandei minha filha ir até
a varanda para desligar o rádio, fui até o quarto e coloquei o bilhete na
janela. Deitei no chão da varanda e dormi. A adolescente ficara atenta a todos
meus passos e me seguira até o quarto sem eu perceber, me viu botando o papel
na janela. Depois que eu adormeci, ela foi pegar o papel e perdeu o chão... Não
acreditava em tamanha crueldade e idiotice de mal ter disfarçado minha letra.
Cambaleando, saiu de casa para ir até a casa da avó, como uma fugitiva, tremia
e olhava para trás para ver se não estava sendo perseguida por mim. Aos prantos
mostrou para a tia o bilhete e contou a cena. Morrendo de medo de mim, não quis
voltar para casa e temia por Geórgia, que chegaria sem saber o que estava
acontecendo. Minha esposa chegou, eu estava bebendo cerveja, comecei xingá-la e
falar do bilhete, ela disse que não sabia do que eu estava falando. Fui até a
janela e vi que o bilhete não estava mais lá. Ofendi Geórgia e falei que ela
havia retirado o papel. Quando me dei conta de que minha filha não estava mais
em casa, imaginei que ela havia pegado e ido para a casa de minha mãe. Fui
atrás dela, minha esposa foi em seguida, com medo que eu agredisse nossa filha.
Tinha toda razão de sentir tal medo... Só não espanquei a moça porque fui
segurado e, nesse dia, xinguei minha progenitora, ajoelhado no chão, prometendo
que nunca mais olharia na cara dela, por ter defendido as duas desgraçadas. A
dor de minha mãe só foi maior no dia da minha morte, muitos anos depois.
Passei
anos sozinho, remoendo minha dor de ter me separado da minha casa e da minha
família. Via poucas vezes minha filha, mesmo quando fomos vizinhos. Passados 10
anos de minha separação, problemas de saúde ocasionados pelo álcool e pelo
cigarro me impediam de trabalhar, tinha de contar com a ajuda da Assistência
Social, minha filha e familiares. Não conseguia abandonar o álcool e me
envergonhava quando algum parente me via nos bares da cidade. Minhas agressões
e xingamentos já não se proliferavam mais. A minha súplica era pela morte, nada
apaziguava minha tristeza. Nessa época, minha filha começou a me visitar com
mais frequência. As visitas tinham de ser nos bares, eram meu lar. Ela sentia
grande pesar por me ver sofrendo. O meu ódio tinha minado e o ódio dela por mim
havia se transformado em compaixão, mas ainda tinha medo do amor que sentia por
mim. Em um domingo à noite, liguei a TV para ver futebol. Acendi um cigarro,
tomei um copo de pinga, senti um incômodo, dificuldade para respirar, apaguei o
cigarro, melhorei. Uma dor insuportável adentrou meu peito, uma gosma começou a
escorrer pela minha boca. ¬–– A morte chegou, até que enfim. A dor aumentou,
aumentou e meu pescoço pendeu para frente. Fiquei ali no sofá por mais de 24
horas até ser encontrado por minha sobrinha. O corpo em decomposição não
poderia ficar à mostra. O caixão veio lacrado. Uma foto em cima da caixa que
carregava os restos de uma história de muita dor. Muitas
lembranças, café e cigarro para aguentar a noite. De manhã, deu-se o meu enterro.
No crepúsculo deste domingo espancado, ouviram-se gritos, choros. O filho de Maria Flor nascera e ela fora petrificada; no dia seguinte, ela fez companhia aos dejetos de Dário.
segunda-feira, 6 de abril de 2015
Morte, você é petulante!
Uma aluna do
sexto ano, dias atrás, depois da leitura de um texto que falava sobre o fim da
vida, disse:
__ A morte, às
vezes, pega pesado, né, “psora”.
Comentários
surgiram a partir disso, a aula fugiu (ainda bem) do que estava programado e a frase dessa pré-adolescente ressoa em mim
desde então.
“A morte, às
vezes, pega pesado”...
Ah! Às vezes? Não
é sempre que essa senhora pega pesado? E, brilhantemente, ela é de profunda
importância... Saramago nos ensinou isso em “Intermitências da morte”... Tantas
outras pessoas nos ensinaram/ensinam isso...
Mas qualquer
escrito perde valor no momento em que a morte vem para aqueles que
acreditávamos que nunca morreriam...
Já escrevi e
falo sobre o medo que eu tinha de a vó Tunica desaparecer enquanto eu estava na
creche. Quando descobri que isso não aconteceria, determinei eternidade para
ela.
No dia
5/3/2015, algo resolveu contrariar minha sapiência infantil... e a vó Tunica
teve de partir.
Um mês após esse
grande peso da morte, começo a sentir o alívio que o peso da história pode
proporcionar. Uma história cravada nas
palavras... Isgrise, esbrontolar, jhavai, dirondar, tonheto, garribarde... Dar
significado para esses vocábulos é quase impossível... buscam-se
definições para essas e outras expressões; no entanto, a força delas está na
vó, é a própria Dona Tunica: Contar
pratinhas para pagar as contas, ensinar que, na vida, para tudo tem um jeito, bater
palmas quando o “parmera vara um gô”, mandar arrumar o chinelo que está tonheto, ficar com isgrise, gritar de dor ao
saber da morte do meu pai, sempre trabalhar e cuidar muito de todos, fazer sopa
de macarrão comprido ou macarrão picado, pegar o istroce para pôr ali no coiso,
rezar, contar as histórias da Sá Maria, da panela de polenta que a bisa não
permitia que fosse lavada no outro dia, ensinar a importância de se ir à missa
e aos velórios, fazer visitas na casa da
“cumade” Ana, cortar cabelo na Leninha... As histórias da vó,
lembradas, esquecidas, relembradas, sempre dirondarão por todos nós, sobrepondo
seu peso ao da morte.
A vó Tunica
sabia que a história era mais forte que a partida, construiu, para nós, o “nonim”, por
meio de relatos (nunca precisamos de retratos para vê-lo nas festas
e lidas da roça e, até mesmo, na dor de ter uma doença incurável).
Muitas vezes,
procurei Deus, deuses, santos, entidades, velas e, inclusive, o nada, para
entender o susto, a revolta, a dor de
ver alguém tão amado partir. Depois de tantas perdas, agarrar-me ao não
entendimento da morte, sentindo o peso dela, me traz a força histórica, que me deixa respirar e me curar, como os queijos no sítio do Zé Peron, o qual também nos
deixou grandes histórias... deixou lá a cadeira dele, o chamamento da vaca
Guaíra, o recitar mais belo de xingamentos, a força do trabalho e do olhar. Lá
do sítio, sai o cheiro do pão de chocolate... e sai, também, lá da casa da tia
Isabel, a Beluda, que fazia pão e chá de chocolate... proseávamos e proseávamos...
era prosa para mais de metro. Ela ainda grita dentro de nós: “Cala-te, boca.” “Cê
que não muda esse jeitinho, não.” “Oh, língua maléfica”...
As histórias
dessas e outras pessoas amadas constroem
minha história, meu sangue... que é perpassado pelo Zé, meu Zé Umberto Gazola,
trajado de durezas e fraquezas... Meu
Zé... Meu e da vó Tunica, a essência da minha explosão perante a história.
A morte pega
pesado... Muito pesado! Ela é petulante o suficiente para nos deixar no
desamparo da ignorância...
Que as
histórias possam sempre me reconstruir...
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