sexta-feira, 6 de março de 2015

Tchau, vó. Bença.


Sim! O corpo no caixão era o dela. Não queríamos que fosse.
O velório se iniciou; do carro de som, saíram tão inacreditáveis palavras:

"A família Gazola anuncia o falecimento de Antônia Rossetti Gazola, mais conhecida como Dona Tunica. (...) O enterro será no dia 6/3 às 8h (...)"

Enterro... Enterrar a vó Tunica. Ah! Alguém estava fazendo uma brincadeira de mau gosto. Nós jamais deixaríamos a terra cobrir a nossa amada... Mas o corpo dela, gelado, com flores, com um rosário, gritava que a vó também fazia parte dos corpos mortais.
O corpo mortal tão carregado da imortalidade, sustentada pela força das lembranças e do amor. 
Muita dor, tristeza, pranto e, no decorrer da noite, risos, histórias  e  mais histórias da vó com seus netos.
Eu tinha 8 meses de idade, quando comecei a passar o dia todo na casa da vó. Meus pais trabalhavam e me buscavam à noite. 
Ela sempre contava que eu assistia à novela dos gatinhos com ela e também que morria de medo de passar pelo portão da rua sozinha. Não me lembro disso, mas recordo-me do temor que tive quando, aos 5 anos, comecei a frequentar a pré-escola, na creche, que ficava quase em frente à casa da vó. Eu queria que o dia passasse muito rápido para eu ter certeza de que ela ainda existia ali do outro lado da rua.
Depois, descobri que, mesmo eu não passando o dia todo com a Dona Tunica, ela não sumiria. Que alívio!
Aos domingos, íamos à missa juntas. Eu não entendia muito bem tudo o que era falado pelo padre Franco, mas de uma coisa eu tinha a máxima certeza: "Oremos" significava: "Levantem". Ele dizia: "Oremos" e todos se levantavam... Passaram-se alguns anos para essa minha certeza ser substituída pelo entendimento do ritual.
Hoje o mesmo padre Franco rezou aos pés do corpo da vó. Ele não disse a tão marcante palavra, porém, assim que ele chegou perto do caixão, levantamo-nos... Lembrei-me das cenas dominicais e pensei que minha maluca certeza poderia ter um pouco de razão...
"Tudo dia, eu rezo proceis. Pro meus fio, pro meus neto... pa tudo, pa tudo." Imagino que tenhamos nos levantado de tantos tombos pelo amor da oração da vó.
E o amor dela também me fez amar as palavras. Quantas e quantas vezes ela ouvia minhas histórias inventadas e dava trela para eu prosseguir.
Num dia, sentados no chão da varanda, eu e meu primo contávamos para ela mais uma invenção literária. Ela disse:
__Que história mais sem pé, nem cabeça...
Respondi que o menino da história não tinha nem pé, nem cabeça mesmo...
__ Ah é?
E continuou emprestando toda sua atenção de leitora de narrações.
Ah! E a paixão dela pelas palavras em forma de letras... Era analfabeta, em razão de "mulher não tem que ir para escola", regra impregnada em boa parte da sua vida. Depois de adulta e já com netos, embora insistíssemos, não quis quebrar esse "tabu", talvez por vergonha...
Bom! Mas mesmo "sem leitura" (como ela dizia), nos ensinou a beleza e o prazer dos estudos...
Ensinou-nos tanto, tanto... A maior lição foi a do amor, esse sentimento tão difícil de se atribuir um significado que o abarque completamente.
Hoje, vó, me despedi da senhora, como sempre: "Tchau, vó. Bença." Mas não ouvi as palavras que acompanhavam nossas despedidas: "Tchau, Lianinha. Deus te 'bençoe'. Toma cuidado por tudo. Tenha uma boa noite sagrada. Vai com Deus e Nossa Senhora."
Ah, minha, nossa, vó Tunica... quanta saudade!!
Mande um beijo meu aí para seu amado filho __ meu velho pai... 
Tchau, vó. Bença.




domingo, 25 de janeiro de 2015

Rosa era o vestido... Um vestido rosa


Junho se aproximava, começavam os preparativos para a festa junina na creche. A menina não possuía vestido para dançar no mais importante evento escolar... para ela...
A mãe, com poucos recursos financeiros, mas com a mais ativa criatividade, providenciou um belo vestido rosa com babados. Nunca tivera roupa tão exuberante, tinha vontade de colocar o vestido todos os dias, até para tomar banho.
Um encantamento sem tamanho e freio passava pelo calor de sua espinha, toda vez que se imaginava usando o vestido rosa.
Chegou o ensaio final da quadrilha. Todas as crianças vestiram-se com as roupas que usariam na apresentação da grande dança. Parada, próxima ao pátio, sentiu algo intensamente extraordinário, um remoer dentro do estômago, um palpitar de todos os órgãos... Não tinha nenhuma nomeação para o que sentia, apenas sentia e sabia que era bom, muito bom. E não imaginava o quanto procuraria, ao longo da vida, esse sentimento não nomeado, quase impossível de significação.
O grande dia chegou... deve ter sido bom! Talvez sim, talvez não... Nunca conseguiu se lembrar do momento da dança e do que sentira e nem, ao menos, do seu par na quadrilha.
Ah! Mas a menina parada perto do pátio, com o vestido rosa... essa passou a ser procurada ao longo da vida...
No guarda-roupas dividido com os pais e irmão, estava ele, dobrado e sempre bem passado: o vestido rosa.
Vestira algumas vezes a encantada peça, porém aquele sentimento da creche não aparecia. Contemplava o vestido e sentia o cheiro daquele dia, fechava os olhos, e somente o aroma passava por ali.
Com o passar do tempo, foram contando para ela que não havia como resgatar aquela sensação e que deveria contentar-se com a lembrança.
Menina teimosa, sempre um pouco descrente no "não é possível", deixou o vestido rosa de lado, porque crescera e ele não se adequava mais ao seu corpo, mas nunca deixou de procurar as proximidades do pátio da creche.
Numa procura desconhecida, muitas vezes não sabia que era aquele vestido que estava procurando, foi perdendo a teimosia e acreditando que deveria ficar apenas com o contar daqueles sentimentos. Passou a acreditar que deveria nomeá-los e guardá-los para serem preservados da corrosão que começara  habitar suas esperanças. Os nomes, os significados para aquele explodir belo e intenso mataram, rasgaram, implodiram o vestido rosa, a creche e aquela menina que fora habitada pelo não significado... E restou apenas o lembrar. E também o esquecer.
Teimosia, confusão e procura camuflada... na cama, nos olhos, no amor, na dor, no sabor, na creche, no nome, no sobrenome, na letra, na fruta, na álgebra.
Ah, menina de vestido rosa, nas proximidades do pátio da creche, no último ensaio da quadrilha, permaneça aí, fuja das lembranças, da busca, dos nomes. Fique aí, onde você não está... onde você realmente existe...









sábado, 13 de dezembro de 2014

Não está... mas está em todos os corpos

Chegou. Um barulho. Algo morto estava ali dentro daquela vida. Quando criança, chegara a acreditar em ressurreição. O deus maior não permitia a dúvida.
Acreditava que, depois do fechar de olhos, seu corpo teria a vida de novo, em algum canto do céu.
O olhar mais tenebroso! Parece que a moça do catecismo estava certa! Ressurreição... Aquela catecista de cabelos enrolados só se esquecera de explicar que a ressurreição acontece no labirinto das veias mais podres e petrificadas.
O que acordou? O que foi pedido?
Uma poça de sangue para ser adentrada... Como?
Risos... Escárnios... Uma dor coroada com os espinhos do Cristo.
Sentiu mais uma veia podre pedir vida. Tão belo esse Cristo na cruz.
Mais uma veia pede vida.
Mais um sexo, mais pernas, mais uma tentativa...
O corpo que pede a ressurreição das veias não está... mas está em todos os outros que a entrelaçam...
Tentativas inúteis de pegar o que lá foi colocado... Lá? Onde? O quê? Para quê? Por quê?
As veias pulsam e querem dar vida à morte... conseguem.  Algo vivo, demasiadamente vivo, a leva para um abismo, uma loucura, um florescer.
Mais pernas, mais, mais e mais...
Tentativas inúteis, sexos inúteis.

As veias pulsam... Eram mais belas quando estavam podres.

sábado, 27 de setembro de 2014

Destrinchador não destrinchável

Aula de Língua Portuguesa, não sei em qual ano, não sei em qual série. Professora: Maria do Carmo.
__ Paulo Maluf não é político. Ele está político...
Me assustei! Resolvi firmar a atenção na professora. Meu pensamento, desde sempre, resolve dar umas voltinhas por aí, por lá, por cá...
A professora destrinchou os verbos ser e estar.
Fiquei confusa, perdida. Não consegui destrinchar-me.
Sempre gostei de fazer exercícios de gramática, mesmo quando não entendia a finalidade. Classificar os verbos, descobrir as orações subordinadas, as coordenadas etc etc... tudo era uma aventura para mim.
Entretanto, descobrir que descobrir a classificação ou nomeação de algo não finda nada, mas abre outros algos, outras portas, que abrirão outras coisas, outros outros... ah... teve/tem um cheiro epifânico.
Meu pensamento ganhou passagens para outras viagens... se embrulhou numa maçaroca tão saborosa quanto perturbadora.
As coisas estão! Muitas vezes, insistentemente, as coisas estão por muito tempo. Buscam um status de ser, talvez por clamarem uma absolvição. O escorregão traz de volta o estar, denso, pesado, mutável, destrinchador não destrinchável.
A rota do verbo estar me apetece, talvez por minhas costas não suportarem o peso absoluto de ser.

sexta-feira, 26 de setembro de 2014

A mais bela de todas elas...





Fios de neve
cura de feridas
na pele... além dela

ossos
deterioração
sustentação
Criação!

Pelo sinal!
a Santa
Cruz libertadora

Respeito 
Proteção
Pilar vívido... vivido

Histórias
remendos
remédios
nas letras...
jamais decifradas
Idolatria dos livros

lágrimas
abraços
mãos
cheiro
Louvor...






segunda-feira, 1 de setembro de 2014

Tempo para o nada

Nada...
Necessidade de nada
Piedade!
Um nada para invadir
e
Gerar o nada

Adentrar a insanidade
Descobrir o eco do fruto descartado
Resgatado... enigma

Decodificar, enrijecer a dor
Tempo
Nada
O nada


sábado, 2 de agosto de 2014

É isso mesmo, José?




Então, quer dizer que você se foi mesmo?
1
2
3
4
quase
5

anos e


ainda quase
quase o vejo quando viro a esquina
quase enlouqueço nos nossos quases
quase o encontro naquela paixão
quase o busco nos bares

Quase o vi pela última vez
mas você veio lacrado
me mandou apenas uma foto
ficou ali dentro
a noite foi quase insuportável

Suportei

ainda era bom ter seus restos por perto
e ainda havia o mais infame dos sentimentos
a esperança
a caixa aberta, seu corpo, seus calos, seus lábios, sua camisa...

Mas você se foi sem se abrir
Imponente, foi para debaixo da terra
Seu retrato também se foi

Quase!

Quase choramos juntos
Quase torcemos juntos
Quase recomeçamos juntos

Cindidos e sentidos, vivemos uma boa dose do amar
Ah! José! E aprendemos o que os poetas ensinam há tempos!
Apreendemos toda dor que existe no amor...

É isso mesmo, José?
A caixa ficará lacrada?
E a casa da esquina?
Você insiste em me dizer que ainda está lá...
E às vezes me diz que está na casa ao lado... da casa de esquina...

Abra a caixa, José!
Abra!
Para que seus escombros me reconstituam...

Abrir-me-ei...