sábado, 13 de dezembro de 2014

Não está... mas está em todos os corpos

Chegou. Um barulho. Algo morto estava ali dentro daquela vida. Quando criança, chegara a acreditar em ressurreição. O deus maior não permitia a dúvida.
Acreditava que, depois do fechar de olhos, seu corpo teria a vida de novo, em algum canto do céu.
O olhar mais tenebroso! Parece que a moça do catecismo estava certa! Ressurreição... Aquela catecista de cabelos enrolados só se esquecera de explicar que a ressurreição acontece no labirinto das veias mais podres e petrificadas.
O que acordou? O que foi pedido?
Uma poça de sangue para ser adentrada... Como?
Risos... Escárnios... Uma dor coroada com os espinhos do Cristo.
Sentiu mais uma veia podre pedir vida. Tão belo esse Cristo na cruz.
Mais uma veia pede vida.
Mais um sexo, mais pernas, mais uma tentativa...
O corpo que pede a ressurreição das veias não está... mas está em todos os outros que a entrelaçam...
Tentativas inúteis de pegar o que lá foi colocado... Lá? Onde? O quê? Para quê? Por quê?
As veias pulsam e querem dar vida à morte... conseguem.  Algo vivo, demasiadamente vivo, a leva para um abismo, uma loucura, um florescer.
Mais pernas, mais, mais e mais...
Tentativas inúteis, sexos inúteis.

As veias pulsam... Eram mais belas quando estavam podres.

sábado, 27 de setembro de 2014

Destrinchador não destrinchável

Aula de Língua Portuguesa, não sei em qual ano, não sei em qual série. Professora: Maria do Carmo.
__ Paulo Maluf não é político. Ele está político...
Me assustei! Resolvi firmar a atenção na professora. Meu pensamento, desde sempre, resolve dar umas voltinhas por aí, por lá, por cá...
A professora destrinchou os verbos ser e estar.
Fiquei confusa, perdida. Não consegui destrinchar-me.
Sempre gostei de fazer exercícios de gramática, mesmo quando não entendia a finalidade. Classificar os verbos, descobrir as orações subordinadas, as coordenadas etc etc... tudo era uma aventura para mim.
Entretanto, descobrir que descobrir a classificação ou nomeação de algo não finda nada, mas abre outros algos, outras portas, que abrirão outras coisas, outros outros... ah... teve/tem um cheiro epifânico.
Meu pensamento ganhou passagens para outras viagens... se embrulhou numa maçaroca tão saborosa quanto perturbadora.
As coisas estão! Muitas vezes, insistentemente, as coisas estão por muito tempo. Buscam um status de ser, talvez por clamarem uma absolvição. O escorregão traz de volta o estar, denso, pesado, mutável, destrinchador não destrinchável.
A rota do verbo estar me apetece, talvez por minhas costas não suportarem o peso absoluto de ser.

sexta-feira, 26 de setembro de 2014

A mais bela de todas elas...





Fios de neve
cura de feridas
na pele... além dela

ossos
deterioração
sustentação
Criação!

Pelo sinal!
a Santa
Cruz libertadora

Respeito 
Proteção
Pilar vívido... vivido

Histórias
remendos
remédios
nas letras...
jamais decifradas
Idolatria dos livros

lágrimas
abraços
mãos
cheiro
Louvor...






segunda-feira, 1 de setembro de 2014

Tempo para o nada

Nada...
Necessidade de nada
Piedade!
Um nada para invadir
e
Gerar o nada

Adentrar a insanidade
Descobrir o eco do fruto descartado
Resgatado... enigma

Decodificar, enrijecer a dor
Tempo
Nada
O nada


sábado, 2 de agosto de 2014

É isso mesmo, José?




Então, quer dizer que você se foi mesmo?
1
2
3
4
quase
5

anos e


ainda quase
quase o vejo quando viro a esquina
quase enlouqueço nos nossos quases
quase o encontro naquela paixão
quase o busco nos bares

Quase o vi pela última vez
mas você veio lacrado
me mandou apenas uma foto
ficou ali dentro
a noite foi quase insuportável

Suportei

ainda era bom ter seus restos por perto
e ainda havia o mais infame dos sentimentos
a esperança
a caixa aberta, seu corpo, seus calos, seus lábios, sua camisa...

Mas você se foi sem se abrir
Imponente, foi para debaixo da terra
Seu retrato também se foi

Quase!

Quase choramos juntos
Quase torcemos juntos
Quase recomeçamos juntos

Cindidos e sentidos, vivemos uma boa dose do amar
Ah! José! E aprendemos o que os poetas ensinam há tempos!
Apreendemos toda dor que existe no amor...

É isso mesmo, José?
A caixa ficará lacrada?
E a casa da esquina?
Você insiste em me dizer que ainda está lá...
E às vezes me diz que está na casa ao lado... da casa de esquina...

Abra a caixa, José!
Abra!
Para que seus escombros me reconstituam...

Abrir-me-ei...



sexta-feira, 25 de julho de 2014

Intimidade...

"O beijo". Gustav Klimt.



Lançar aí algo que está aqui e é teu
o que está aí é meu...

Um algo, um eu partido
numa fusão densa
Uma fusão talvez percebida...
somente por um dos fusionados

Indicar
Mostrar
Escancarar a fusão
nos olhos e ouvidos do outro...
pode consistir no mais alto grau de intimidade...

domingo, 20 de julho de 2014

Um outro gozo? Para quê?

Todos certos do espaço ocupado
Não há tempo para não saber de qual pedaço se apoderar...
Sim! Há tempo, sim!
O buraco a ser preenchido pelo corpo dentro da máquina já foi programado...
aquele de sempre...
aquele que mantém um gole de cada vez
em doses lentas, mantendo um gozo eterno

Círculos intermináveis, minando o medo através de águas salgadas
presas e soltas na íris...
também lá... lá no espaço pavoroso
Arrancar, abrir
pisar o vidro, estancar o sangue
beber de outra garrafa, outro líquido, o mesmo líquido condensado
Condenado
Absolvido!

Absolvição
Pavor
Quero entrar ali...
Entre!
Pavor...
Não entre!
Pavor...

Um outro gozo autonegado...