quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026
O preço que pago por não ter uma testemunha biológica da minha luta
O relógio digital marcava 3:00 da manhã, um brilho neon que parecia perfurar a retina exausta de Clarice. Ela fechou o notebook, o silêncio do apartamento pesando como chumbo, mas sua mente continuava em uma rotação frenética e injusta. Por que, pensou ela, o meu esgotamento sempre precisa de uma nota de rodapé ou de um pedido de desculpas? Se eu tivesse um berço no quarto ao lado, meu cansaço seria sagrado, uma medalha de honra, algo compartilhado com suspiros de solidariedade no café da firma.
Mas como sou "apenas eu", a fadiga é vista como má gestão de tempo ou um luxo de quem não tem "obrigações de verdade". É como se o vazio do meu útero invalidasse o peso das minhas olheiras, como se o direito ao repouso fosse uma concessão exclusiva à linhagem biológica. "Você não sabe o que é cansaço de verdade", diziam as vozes veladas, enquanto ela assumia as demandas de quem precisava sair cedo para a escola ou para a febre noturna.
Quem não tem filhos é condenada ao papel de pilar invisível, a peça de reposição que nunca quebra, a reserva infinita de energia que não pode reclamar porque, afinal, "você só cuida de si". Mas quem cuida de quem cuida apenas de si quando o corpo implora por trégua? O cansaço dela não tinha um rosto de criança para justificá-lo, era apenas um cansaço cru, seco, uma exaustão de quem carrega o mundo nas costas para que outros possam carregar seus filhos. Clarice apagou a luz, questionando se a humanidade do seu cansaço algum dia seria reconhecida sem precisar de uma certidão de nascimento de um filho para legitimá-la.
O silêncio do apartamento, antes um refúgio, agora parecia um tribunal. Clarice sentia o latejar das têmporas em sincronia com o cursor invisível que ainda piscava em sua mente. Ela se deitou, mas os lençóis pareciam ásperos, como se a própria cama questionasse seu direito de estar ali, estática, sem uma razão "nobre" para o despertar súbito.
O pensamento de Clarice derivou para a reunião de amanhã. Ela já sabia o roteiro: aceitaria o prazo mais curto, cobriria o turno de fim de semana de Roberto — cujo filho teria um campeonato de judô — e sorriria com aquela compreensão automática que se espera de quem "tem tempo de sobra".
Na lógica corporativa e social, o tempo de Clarice era visto como um recurso não renovável, uma commodity a ser minerada até o esgotamento em prol do equilíbrio alheio.
Ao se levantar para beber um copo d'água, o reflexo no espelho do corredor a deteve. As olheiras não mentiam, mas não carregavam a narrativa de uma "mãe heroína". Eram apenas marcas de uma mulher que:
• Sustentava projetos inteiros sozinha para não sobrecarregar quem "tem família".
• Ouvia desabafos sobre noites mal dormidas enquanto silenciava sua própria insônia crônica.
• Era o "porto seguro" de amigos e parentes, a pessoa que sempre pode atender o telefone porque, teoricamente, não tem nada mais importante fazendo.
"A solidão do esforço," murmurou ela para o vidro frio, "é o preço que pago por não ter uma testemunha biológica da minha luta."
O que cabia no vazio das mãos
Helena caminhava pela cidade como quem carrega um vidro invisível entre as mãos: se apertasse demais, quebrava; se soltasse, estraçalhava. Desde pequena, suas feridas eram tratadas como ranhuras em móveis velhos, detalhes incômodos que a estética da casa exigia ignorar. Quando chorava, ouvia que era nervosa; quando sangrava, diziam que era exagero. Sua existência tornou-se um rascunho mal lido, uma sucessão de frases interrompidas pela pressa alheia. Como Macabéa, Helena parecia pedir desculpas por ocupar um deslocado espaço no ar, mas, ao contrário de Macabéa, que ignorava sua própria miséria, Helena sentia o peso de cada átomo de sua insignificância. Se Macabéa era feita de algodão sujo, Helena era feita de um silêncio que ninguém se dava ao trabalho de traduzir.
A tragédia não veio da solidão, mas do retorno agressivo daqueles a quem ela entregou seus melhores anos e sua própria substância. Pessoas que ela alimentou com o próprio tempo e renúncia passaram a cercá-la com um ódio inexplicável. Onde antes havia o sacrifício dela, floresceu neles uma perseguição voraz, como se a simples existência de Helena fosse uma dívida que eles se recusavam a pagar. A angústia que a sufocava não era o medo de perder algo concreto, mas a sensação de estar saturada pela vontade do outro. Era o sufoco de ser transformada em um objeto estranho, um depósito de culpas alheias, presa em um espelho que devolvia uma imagem distorcida que todos juravam ser sua única face.
Helena se deu conta de que ela era a cena preterida, o resto que sustentava o banquete daquelas pessoas. Entendeu que o mal que lhe faziam era a única forma que eles tinham de não olhar para o próprio vazio. Em um gesto concreto de ruptura, ela caminhou até o armário onde guardava as memórias e objetos daqueles que a perseguiam. Sem o drama do choro ou a busca por uma explicação que o outro nunca daria, ela reuniu tudo em uma caixa e a deixou no meio da calçada, entregando ao vento o que não lhe pertencia mais. Ao fechar a porta de casa e trancá-la pelo lado de dentro, não para se esconder, mas para delimitar onde o outro terminava, ela sentiu o nó na garganta ceder.
O impacto desse não silencioso reverberou como um colapso invisível na estrutura daqueles que a perseguiam. Acostumados a vê-la como o suporte passivo de suas próprias frustrações, o súbito vácuo que ela deixou desorientou o grupo. Sem o alvo, o ódio deles perdeu o vetor; sem o espelho que Helena lhes oferecia, eles foram subitamente confrontados com as próprias deformidades que antes projetavam nela. A perseguição, que antes se alimentava da reação e da dor dela, tornou-se um monólogo histérico e vazio. Ao não oferecer mais a sua angústia como banquete, Helena desintegrou o laço que os unia na crueldade.
Ao cair da tarde, o apartamento de Helena exalava o cheiro de uma casa que já não esperava por ninguém. A porta da frente, encostada, balançava levemente com o vento do corredor, revelando uma sala impecavelmente limpa, despojada de qualquer traço de quem a habitou. Na mesa da cozinha, a maçã que antes apodrecia fora removida, deixando apenas uma mancha circular e seca na madeira, como um carimbo de algo que deixou de ser. Não havia bilhetes, nem explicações, apenas o silêncio de quem retirou o corpo de cena para que o espetáculo do ódio alheio perdesse o sentido por falta de audiência.
Na calçada, a caixa de memórias que Helena descartara estava revirada pelo vento, com fotografias rasgadas voando em direção ao bueiro. Algumas quadras dali, uma mulher com o passo firme de quem não carrega mais o peso do mundo nos ombros foi vista entrando em um ônibus de viagem, sem olhar para trás, levando apenas o que cabia no vazio das mãos. Ao mesmo tempo, vizinhos comentavam sobre o som de algo pesado atingindo a água do rio que cortava a cidade, um mergulho definitivo na escuridão profunda que sempre a rondara. Helena agora era uma ausência absoluta, um enigma que aqueles que a perseguiam jamais conseguiriam decifrar. Onde quer que estivesse, ela deixara de ser o objeto de todos para se tornar o mistério de si mesma.
terça-feira, 17 de fevereiro de 2026
A trincheira da encruzilhada
O café repousa, esquecido e frio, como um cadáver de louça sobre a mesa, enquanto Maria naufraga o olhar no asfalto que arde lá fora. O sol do meio-dia é um carrasco que não pede licença; ele invade o cômodo, expondo a poeira que dança no ar, partículas de um cansaço que os séculos de servidão não deixam limpar. Maria não é apenas um nome, é uma geografia de cicatrizes, um mapa de mãos calejadas por carinhos devolvidos em forma de espinhos. Ela observa o desfile dos injustos: a vizinha, cujo coração é um deserto de empatia, ostenta o brilho de um metal novo, enquanto o patrão, que costura o lucro com a linha do suor alheio, sorri em molduras de ouro. A vida parece um banquete onde os lobos se fartam e as ovelhas pagam a conta.
“Por que o açoite do desprezo sempre encontra as minhas costas? Eu, que fiz do meu peito um abrigo e da minha cozinha um altar para saciar a fome de quem hoje me cospe. Eles me olham como se eu fosse um bicho, uma criatura de rito e resto, esquecendo que foi o meu axé que segurou o mundo deles quando o teto ameaçou desabar. O amor que plantei colhi em pedradas de indiferença. Dizem que meu santo é 'pesado', mas pesado é o fardo de ser gente num mundo que só entende o cifrão. Sou carne, sou sangue ou apenas a sombra que limpa o chão de quem se acha dono da luz? Meu pranto é o mar de Iemanjá, mas meu silêncio é o trovão que Xangô guarda para o dia do acerto.”
No canto da sala, o sagrado é sua única trincheira contra o preconceito que se veste de linho. Maria não teme os mortos, pois eles guardam o segredo do repouso; seu pavor nasce dos vivos, dos "homens de bem" que usam a fé como chicote para marcar a classe social. Entre o aroma da arruda e o mistério do fumo, ela invoca seus advogados invisíveis. Iemanjá é o colo de sal que lava a alma da subalterna; Xangô é o machado da verdade que corta o nó cego da injustiça. Lula, na parede, é o espelho de carne: o Xangô que vestiu a faixa para equilibrar a balança, o Zé Pilintra que driblou a fome e o preconceito para provar que a dignidade não se curva ao terno e à gravata.
Para ela, a justiça é uma encruzilhada onde o místico e o político se abraçam. Seu Zé Pilintra é o guia da malandragem santa, aquele que conhece o lodo da rua, mas mantém a alma branca. Ele e o "homem do povo" são a mesma reza: a prova viva de que quem foi tratado como bicho também pode governar o destino. Maria ajeita a guia no pescoço, sentindo o peso do cristal contra a pele. Se a justiça humana é um labirinto de conveniências, a de seus guias é o rio que sempre encontra o mar. Ela se levanta, não como quem aceita a derrota, mas como quem sabe que o tempo é um senhor que não dorme, e que cada lágrima sua está sendo devidamente anotada no livro de Xangô.
quarta-feira, 8 de abril de 2020
Equações fechadas em si e em Se
Levantou-se, tomou um banho, tomou café e, mais uma vez, refez suas contas. Como isso era complicado... para José.
Acendeu um cigarro e refez as contas novamente.
Não se tratava apenas de contas físicas, mas, sim, de uma prestação do que havia feito da vida até o momento.
José trabalhava em escritório de contabilidade e escrevia crônicas para jornais. Por anos, quis deixar o emprego e se dedicar somente à vida de escritor ou continuar se dedicando às letras e ter um outro emprego menos estressante que o de contador.
Acendeu outro cigarro e fez as fatídicas contas novamente. As físicas estavam ok, mas as equações fantasmáticas se resolviam com um Se. Meu Deus! Por que tanta tortura?
Arrumou-se e foi para o trabalho. Mais um dia estressante, perturbador. Como sempre, queria ir embora e largar tudo aquilo. Conteve-se e o expediente acabou. Chegando em casa, José escreveu mais uma crônica para um jornal e sentiu-se realizado. Dormiu.
O despertador tocou, levantou-se, tomou café e... refez as contas. Vale a pena tanto estresse? Mas sem esse estresse não tenho renda completa para minhas despesas... mas, se deixar o escritório, posso arrumar outro emprego ou escrever para mais jornais...
Suspirou, tomou um banho, arrumou-se e foi para o trabalho. No fim do dia, encontrou-se com sua namorada, beberam, conversaram e se amaram. José teve a sensação, mais uma vez, de que as suas contas o haviam deixado em paz. Dormiu.
Levantou-se às 6 da manhã e foi se encontrar com seus fantasmas. Não aguentava mais viver assim. Anos e anos, passando por essas malditas equações devastadoras.
José sabia que qualquer caminho que tomasse o levaria para o Se... Era isso que ele queria eliminar ou, ao menos, minimizar.
Conversou com a namorada sobre suas dúvidas profissionais e ela, mais uma vez, o aconselhou a tentar diminuir sua carga horária no escritório, tendo mais tempo para as escritas.
Ele acatou e decidiu fazer esse pedido no escritório. Conseguiu! Passou a trabalhar meio período como contador e, no tempo fora do escritório, escrevia e estudava.
Por alguns meses, José se sentiu feliz e longe das suas malditas equações fechadas em si e em Se.
Trabalhava feliz em seus dois ofícios.
José teve propostas de mais jornais e sua vida financeira melhorou. Não era ruim, pois sempre conseguira pagar suas despesas, mas havia ficado melhor.
Voltou a ver a vida com vontade de estar nela, de estar onde estava. Alívio. Alívio!
O despertador tocou, levantou-se, tomou café, banho e foi para o trabalho. Lá foi avisado de que a Bolsa de Valores estava com vagas abertas. Vários colegas dele estavam alvoroçados com a notícia e estavam enviando currículos. José teve a certeza de que não queria aquela loucura. Estava bem.
A vida corria normalmente. José estava satisfeito.
E se eu tivesse me inscrito para as vagas da Bolsa? Poderia ter passado e estar com mais dinheiro. E, ainda, poderia continuar a escrever. E, se um dia, for mandado embora de meu emprego? Terei de aceitar outro em que eu trabalhe o período todo e, provavelmente, com salário inferior ao da Bolsa de Valores.
Acendeu um cigarro e sentou-se com suas equações novamente. Os resultados não eram diferentes.
Torturou-se o fim de semana inteiro. Mal teve tempo de apreciar a companhia de seus amigos e de Maria.
Insatisfeito com a quantidade tortura, apertou um pouco mais as cordas equacionais que o sufocavam. E se eu tivesse feito outras escolhas na adolescência? E se eu tivesse escolhido outra namorada? E se eu tivesse escolhido ter filhos? Com outras escolhas eu não me torturaria tanto? José sabia que outras escolhas também o teriam levado para mesma masmorra.
Ficou sem ar, perdeu a noção de espaço e tempo. Sufocou-se em seus Ses. Sufocou-se em si.
O despertador tocou, José fez as contas e convenceu-se de que fizera as escolhas certas.
Foi trabalhar contente e tudo estava voltando a ter paz. Mas ele sabia que era por pouco tempo. Ele queria poder resolver essas equações de forma diferente, de eliminá-las, mas, para isso, ele sabia que precisaria ter o poder de sustentar suas escolhas... José queria esse poder, esse poder de paz.
Adormeceu cansado de tanto pensar. Acordou, tomou café, não refez as contas, sem saber o que o tocara para não refazer tais malefícios. Dormiu novamente. Acordou sentindo-se com certo poder. Trabalhou no escritório, escreveu crônicas em casa, namorou, divertiu-se.
Não! José não se livrou totalmente das equações, mas conseguiu caminhar pela vida com mais poder e menos Se.
Não! José não se livrou totalmente das equações, mas conseguiu caminhar pela vida com mais poder e menos Se.
quarta-feira, 15 de agosto de 2018
Revisita
Quarto aberto
café
dores
amores
vida
um suspiro de prazer
um prazer preestabelecido
desencontro
fadigas
reencontro
felicidade nos órgãos íntimos
desejo
desejo
escrita
trabalho
vida intensamente revisitada
domingo, 15 de abril de 2018
Vó Natalina!
Natalina Bagini Peron, uma mulher de vaidade guerreira! Facão na mão, palha tirada, café carpido. Suspiros selecionados, gargalhadas escancaradas. Dia certo para comprar a roupa de ver Deus, brincos adornando o rosto carregado de coragem.
Ah! A mulher que colocava à mesa todo seu carinho no colorau, que dava vida ao melhor macarrão, acompanhado com batatas e carne, exposto em uma grande panela. Logo depois dos almoços de domingo, aroma preto, forte, abraçando a doçura do bolo fofinho e a marca registrada da família: pão de chocolate.
As tradicionais festas somente se finalizavam depois de comermos arroz com ovos fritos pela Dona Natalina. E todos tinham o privilégio de escolher se a gema seria dura ou mole e de degustar esse mimo, que ela fazia com tanto carinho.
Os ausentes, nos horários em que as comidas eram servidas, ficavam tranquilos, pois sabiam que teriam seus pratos feitos e “escondidos” pelas mãos hábeis da matriarca.
Com todo esse amor, desfrutávamos, também, da pamonha, do milho assado, da canja de galinha, dos potinhos de plástico, resplandecendo o arroz, o feijão, o frango caipira.
Além dos prazeres proporcionados pelas comidas, a mãe, esposa, sogra, vó e bisavó, Natalina, abriu um caminho, tirando o mato, a tiririca, a fumaça, a poeira... mostrando a todos nós a estrada fincada nos livros, nas canetas, nos lápis.
Um "Deus te ‘bençoe’”... sempre foi força para seguir em um mundo aberto, trilhado pelo trator de quem desestabilizou cada moirão que sustentava os problemas da vida.
Agora ficamos todos com belas lembranças, grandes exemplos e imensa saudade!
terça-feira, 20 de março de 2018
“Ó morte, tu que és tão forte... Que matas o gato, o rato e o homem “
O título deste ensaio é parte do refrão da música “Canto para minha morte”, de Raul Seixas, e retrata a força que a morte tem na vida do ser humano. Um grande paradoxo... ou não... morte e vida...
Pensei em escrever aqui o que penso sobre a morte e, até mesmo, minha crença religiosa diante desse fato inevitável com o qual ninguém quer se deparar, porém resolvi escrever sobre duas obras de dois poetas, “Se eu morresse Amanhã!”, de Álvares de Azevedo, e “Clarisse”, de Renato
Renato Russo e Álvares de Azevedo estão entrelaçados em suas expressões. O poema “Se eu morresse amanhã!”, deste, e a canção “Clarisse”, daquele, apresentam traços melancólicos, assim como um profundo gosto pela morte.
Álvares de Azevedo provavelmente fora favorecido, em suas obras, pelo meio literário paulistano, impregnado de afetação byroniana, no que se diz respeito aos componentes de melancolia, sobretudo a previsão da morte, que parece tê-lo acompanhado como demônio familiar. Imitador da escola de Byron, Musset e Heine, tinha sempre à sua cabeceira os poemas desse trio de românticos por excelência, e ainda de Shakespeare, Dante e Goethe.
Proferiu as orações fúnebres por ocasião dos enterros de dois companheiros de escola, cujas mortes teriam enchido de presságios o seu espírito. Era de pouca vitalidade e de compleição delicada; o desconforto das "repúblicas" e o esforço intelectual minaram-lhe a saúde. Nas férias de 1851-52, manifestou-se a tuberculose pulmonar, agravada por tumor na fossa ilíaca, ocasionado por uma queda de cavalo, um mês antes. A dolorosa operação a que se submeteu não fez efeito. Faleceu às 17 horas do dia 25 de abril de 1852, em domingo da Ressurreição. Como quem anunciasse a própria morte, no mês anterior, escrevera a última poesia sob o título "Se eu morresse amanhã!", que foi lida, no dia do seu enterro, por Joaquim Manuel de Macedo.
Já a vida de Renato oscilava entre tristezas e alegrias. Por força de sua própria personalidade, Russo permanecia constantemente nas oscilações de tristezas. E sua morte também aconteceu no meio desse paradoxo.
O líder da Legião Urbana, depois de descobrir que estava com AIDS, isolou-se da vida, em seu apartamento, e recusava qualquer tipo de tratamento.
Renato desenvolveu uma espécie de anorexia e só conseguia tomar água de coco e, para piorar, deprimiu-se profundamente.
No dia de sua morte, disse a sua mãe: " Estou em paz, mãe. Tudo o que eu fiz de certo e de errado já conversei com Deus".(cf. Artur Dapieve, 2000, pag. 166)
“SE EU MORRESSE AMANHÃ!” E “CLARISSE”
Se eu morresse amanhã !
Se eu morresse amanhã, viria ao menos
fechar meus olhos minha triste irmã;
Minha mãe de saudades morreria
Se eu morresse amanhã !
Quanta glória pressinto em meu futuro,
Que aurora de porvir e que manhã !
Eu perdera chorando essas coroas
Se eu morresse amanhã !
Que sol ! que céu azul ! que doce n'alva
acorda a natureza mais louçã !
Não me batera tanto amor no peito
Se eu morresse amanhã !
Mas essa dor da vida que devora
A ânsia de glória, o dolorido afã...
A dor no peito emudecera ao menos
Se eu morresse amanhã !
Vamos analisar o que diz o poema:
Se eu morresse amanhã, viria ao menos
Fechar meus olhos minha triste irmã;
Minha mãe de saudades morreria
Se eu morresse amanhã !
A morte já se faz presente nos pensamentos do eu lírico. É como se ele fizesse um "balanço" de sua vida para, assim, verificar quem possuía considerações em relação a ele.
Não há preocupação e interesse com o mundo externo, pois a preocupação do eu lírico não é em relação à dor que sua irmã e sua mãe sentiriam se ele morresse, mas mostra que, para poucas pessoas, ele faz falta. Isso fica claro ao analisarmos a expressão "ao menos".
Segundo o dicionário Antônio Houaiss, "ao menos" significa entretanto, todavia e estas, conforme o mesmo dicionário, significam conjunções adversativas, que indicam ideias contrárias. Notamos que a morte do eu lírico não causaria dor a ninguém, mas sua mãe e sua irmã sofreriam por ele. Assim, o ego está praticamente desprovido de autoestima, o personagem não se considera importante.
Na segunda estrofe:
Quanta glória pressinto em meu futuro,
Que aurora de porvir e que manhã!
Eu perdera chorando essas coroas
Se eu morresse amanhã !
O eu lírico pressente um futuro claro e glorioso. Se o eu lírico morresse no dia seguinte, perderia tudo da vida, portanto choraria por não ter o que o faria feliz.
Com o uso do pretérito mais-que-perfeito “perdera”, fica claro que todo o futuro já foi perdido. A glória desejada será alcançada após a morte.
Conforme Prof. Pasquale Cipro Neto (Revista Cult 57, pag 23):
... o “perfeito” (do latim: “perfectu”) de nossos pretéritos (imperfeito/perfeito/mais-que-perfeito) significa até o fim, “feito completamente”, e vem do particípio de “perfazer”, em cuja formação entra o prefixo latino “perque”, no caso, indica ideia de conclusão...
O uso do pronome demonstrativo "essa" mostra que as coroas estão distantes do eu lírico. A aurora, a manhã, a glória, tudo isso está longe dele: é algo que ele perdeu na vida (passado) e pode encontrar na morte (futuro próximo).
Essa análise é possível, ao observarmos as definições de Celso Cunha para os valores dos pronomes demonstrativos. Afinal, “esses”, em relação ao tempo, refere-se a passado ou futuro pouco distante.
A terceira estrofe (" Que sol! Que céu azul! Que doce n'alva /Acorda a natureza mais louçã!/Não me batera tanto amor no peito / Se eu morresse amanhã!”) mostra muita certeza de que, ao morrer, o eu lírico encontrará a felicidade. O caminho da glória é representado por elementos da natureza. Nessa estrofe, é citado o amor como algo que já não acontece mais:
"Não me batera tanto amor no peito"
Já nos dois primeiros versos da 4 ª estrofe; notamos que acontece a perda da capacidade de amar.
Mas essa dor da vida que devora
A ânsia de glória, o dolorido afã...
O eu lírico refere-se à dor que consome sua vida. Por meio da oração adjetiva restritiva que devora a ânsia de glória, o dolorido afã, nota-se que existem várias dores de viver, mas a que ele sente devora, acaba com as possibilidades de felicidade.
Nos dois últimos versos da estrofe “A dor no peito emudecera / Se eu morresse amanhã!", notamos que, para a felicidade do eu lírico, é necessário que a morte física o consuma, pois a morte psicológica já aconteceu: a dor no peito emudecera (já está morto interiormente), agora, precisa morrer fisicamente, para que realmente a dor não o incomode mais.
O eu lírico é um ser melancólico, pois demonstra uma tristeza profunda, revelando que o motivo de sua tristeza é a doença do seu próprio ego, pois não é revelada nenhuma perda concreta que desencadeie tanta dor e sofrimento.
Existe uma cessação de interesse pelo mundo externo, o egocentrismo é muito marcante e a fuga da realidade, por meio da morte, é constante.
Vejamos, a seguir, a letra da música Clarisse, de Renato Russo.
Estou cansado de ser vilipendiado, incompreendido e descartado
Quem diz que me entende nunca quis saber
Aquele menino foi internado numa clínica
Dizem que por falta de atenção dos amigos, das lembranças
Dos sonhos que se configuram tristes e inertes
Como uma ampulheta imóvel, não se mexe, não se move, não trabalha
E Clarisse está trancada no banheiro
E faz marcas no seu corpo com seu pequeno canivete
Deitada no canto, seus tornozelos sangram
E a dor é menor do que parece
Quando ela se corta ela esquece
Que é impossível ter da vida calma e força
Viver em dor, o que ninguém entende
Tentar ser forte a todo e cada amanhecer
Uma de suas amigas já se foi
Quando mais uma ocorrência policial
Ninguém entende, não me olhe assim
Com este semblante de bom samaritano
Cumprindo o seu dever, como se fosse doente
Como se toda essa dor fosse diferente, ou inexistente
Nada existe pra mim, não tente
Você não sabe e não entende
E quando os anti-depressivos e os calmantes não fazem mais efeito
Clarisse sabe que a loucura está presente
E sente a essência estranha do que é a morte
Mas esse vazio ela conhece muito bem
De quando em quando é um novo tratamento
Mas o mundo continua sempre o mesmo
O medo de voltar pra casa à noite
Os homens que se esfregam nojentos
No caminho de ida e volta da escola
A falta de esperança e o tormento
De saber que nada é justo e pouco é certo
E que estamos destruindo o futuro
E que a maldade anda sempre aqui por perto
A violência e a injustiça que existe
Contra todas as meninas e mulheres
Um mundo onde a verdade é o avesso
E a alegria já não tem mais endereço
Clarisse está trancada em seu quarto
Com seus discos e seus livros, seu descanso
Eu sou um pássaro
Me trancam na gaiola
E esperam que eu cante como antes
Me trancam na gaiola
Mas um dia eu consigo existir
E vou voar pelo caminho mais bonito
Clarisse só tem 14 anos
De acordo com uma entrevista de Dado Villa-Lobos, exibida na internet, esta é uma canção autobiográfica (Internet, http://legiao-urbana.com.br/p.2)
“Estou cansado de ser vilipendiado, incompreendido e descartado
Quem diz que me entende nunca quis saber
Aquele menino foi internado numa clínica
Dizem que por falta de atenção dos amigos, das lembranças
Dos sonhos que se configuram tristes e inertes
Como uma ampulheta imóvel, não se mexe, não se move, não trabalha”
Nessa estrofe, o eu lírico mostra-se cansado do mundo que o cerca. Não acredita mais nas pessoas e cita um menino o qual, por falta de atenção dos amigos, foi internado em uma clínica.
Este menino traz consigo as consequências da melancolia (como uma ampulheta imóvel, não se mexe, não se move, não trabalha), ele perde todo o desejo pela vida e torna-se uma pessoa sem ação, ele apenas está vivo fisicamente, não vive, não exerce suas atividades.
Toda a tristeza sentida pelo eu lírico é atribuída à ausência de atenção das pessoas que o rodeiam.
Existe uma diminuição da autoestima, pois, segundo o eu lírico, as pessoas próximas dele não lhe dão importância, ele se considera um ser não merecedor de atenção.
E Clarisse está trancada no banheiro
E faz marcas no seu corpo com seu pequeno canivete
Deitada no canto, seus tornozelos sangram
E a dor é menor do que parece
Quando ela se corta ela esquece
Que é impossível ter da vida calma e força
Viver em dor, o que ninguém entende
Tentar ser forte a todo e cada amanhecer
Nessa estrofe aparece uma personagem chamada Clarisse. Esta, por meio da tentativa de suicídio, procura fugir das dores da realidade. Ela corta os próprios tornozelos com um canivete e a dor física é o remédio para a dor psicológica. Clarisse é uma pessoa perturbada, não possui a calma necessária para viver, a sua força já foi perdida, portanto ela busca, na morte, a própria realização. A sua vida é cheia de dor e ninguém consegue entender o quanto é difícil ser forte a cada dia, carregando no peito a dor vivente.
Uma de suas amigas já se foi
Quando mais uma ocorrência policial
Ninguém entende, não me olhe assim
Nesses três versos, é mostrado que uma das amigas da personagem Clarisse já morreu, depois é feita uma alusão à polícia, dando a entender que existe algo ilegal no seu círculo de amizades.
Ninguém entende, não me olhe assim
Com este semblante de bom samaritano
Cumprindo o seu dever, como se fosse doente
Como se toda essa dor fosse diferente, ou inexistente
O eu lírico aparece novamente, mostrando a sua descrença em relação às pessoas, ele não acredita que outros seres humanos possam ter compaixão por ele, e os ataca:
não me olhe assim com este olhar de bom samaritano
A ironia está presente neste ataque ao “outro”, em que é relatado que a pessoa apenas finge estar preocupada com o eu lírico, mas não faz nada para ajudá-lo.
O egocentrismo é marcado fortemente, pois o eu lírico julga-se o único ser que possui essa dor, como se ninguém houvesse sentido antes e, assim, é impossível que alguém o entenda. Ele se preocupa apenas com a própria dor. Está voltado para o próprio ego, formando um escudo entre si e o mundo.
E quando os antidepressivos e os calmantes não fazem mais efeito
Clarisse sabe que a loucura está presente
E sente a essência estranha do que é a morte
Mas as e vazio ela conhece muito bem
Clarisse “surge” novamente e é feita uma referência às drogas (antidepressivos e calmantes).
Quando Clarisse está lúcida, a essência da morte apodera-se de sua alma como algo misterioso e esse mistério é algo a ser desvendado quando a morte realmente a consumir por completo.
A morte é citada como um vazio e Clarisse conhece isso muito bem, porque sua própria vida é vazia.
De quando em quando é um novo tratamento
Mas o mundo continua sempre o mesmo
O medo de voltar pra casa à noite
Os homens que se esfregam nojentos
No caminho de ida e volta da escola
A falta de esperança e o tormento
De saber que nada é justo e pouco é certo
E que estamos destruindo o futuro
E que a maldade anda sempre aqui por perto
A violência e a injustiça que existe
Contra todas as meninas e mulheres
Um mundo onde a verdade é o avesso
E a alegria já não tem mais endereço
Clarisse está trancada em seu quarto
Com seus discos e seus livros, seu descanso
Nota-se que Clarisse passa por vários tratamentos para tentar recuperar-se, mas tudo isso é inútil, pois o mundo continua o mesmo.
Conforme Angélica Castilho e Érica Schlude, na obra Depois do fim, 2002 :
Em Clarisse (9º álbum), a consciência das perversidades do mundo torna uma adolescente de quatorze anos em um eu lírico profundamente incompreendido, gauche , e autodestrutivo: " E Clarisse está trancada no banheiro / E faz marcas no seu corpo com seu pequeno canivete/ Deitada no canto, seus tornozelos sangram / E a dor é menor do que parece.(2002, pg. 144)
Clarisse é extremamente contra o mundo que se apresenta a ela, mas não existe nada claro do que realmente a faz tão perturbada e constantemente em busca da morte. A personagem não tenta recuperar-se de toda essa dor, portanto notamos que o problema está consigo, porque não tem forças para conseguir sobreviver com os problemas da vida.
Eu sou um pássaro
Me trancam na gaiola
E esperam que eu cante como antes
Me trancam na gaiola
Mas um dia eu consigo existir
E vou voar pelo caminho mais bonito
Clarisse só tem 14 anos
Aqui, o eu lírico reaparece mostrando que se sente preso, mas vai conseguir libertar-se, de toda a dor do mundo através da morte. A vida é a prisão em que ele vive, morrendo, encontrará a liberdade.
O eu lírico do poema de Álvares de Azevedo mostra-nos profunda adoração pela morte. Ele, assim como Clarisse (“personagem” da música de Renato Russo), sente-se infeliz e inconformado com a vida, pois não consegue felicidade plena.
Em determinado momento da canção de Russo, Clarisse mostra que conhece muito bem o vazio causado pela morte, o eu lírico de “Se eu morresse amanhã!” também, pois, mesmo estando vivo fisicamente, ele retrata a sua afinidade com a morte.
Na canção de Renato Russo temos, além de Clarisse, um eu lírico, o qual também é alguém que busca a morte como “remédio” para as suas tristezas.
A melancolia marca fortemente essas obras, principalmente, por estas não apresentarem perdas concretas para suas vozes poéticas e suas personagens, que têm dor tão grande e obsessão pela morte.
terça-feira, 13 de março de 2018
Os anos passam e a saudade aumenta, Flor de LiZZZZ!
Nos conhecemos num encontro entre amigos e com muita bebida... Você chegou, se apresentou e eu não entendi seu nome... entendi alguma coisa com "is"... Então, te nomeei Flor de Lis... Na nossa primeira conversa pelo MSN, te chamei de Flor de Lis e você: LiZ com ZZZZZ, por favor... que se foda a gramática. E passou a ser a Flor de Liz com Z, marrenta, briguenta, amável, brincalhona, companheira de copo, implicante com o cigarro, uma grande amiga.
Nosso último encontro foi na sua casa, numa tarde, regado a café... você já trêmula, em razão da medicação, mas alegre, forte e marrenta rs... fez um café, com 260 colheres de pó e ainda "tirou onda": "Uai, não é você que gosta de café forte, Li?" rs...
Conversamos sobre sua doença, sobre as brigas com o plano de saúde, sobre a sua força, suas dores e, na sua face, transparecia a certeza de que logo partiria, na certeza de que cumpriu seu papel por aqui.
Há alguns anos, você está enterrada pertinho do meu lar. As árvores do Bom Pastor tão belas, tão admiradas por mim, ficaram difíceis de ser encaradas. Olho pela janela do meu quarto e dói saber que uma daquelas árvores, que deixam meu apartamento mais fresco, faz sombra no seu túmulo.
E me pego imaginando você brigando com todo mundo pelo cemitério e botando energia em todos.
Quanta saudade, minha Flor de LiZ!
segunda-feira, 5 de março de 2018
“O gato preto”, de Edgar Allan Poe – Um conto perpassado pela psicose e pela mitologia
Autora: Eliana Gazola
Tutor: Emmanuel Mello -Clin-a
“O gato preto”, de Edgar Allan Poe, expõe uma história, cujo foco narrativo é em primeira pessoa, na qual o personagem conta sua trajetória sobre afeto e agressividade destinados à esposa e aos animais, especialmente a um gato (Pluto). O narrador-personagem situa sua agressividade em algo que está além dele (nomeando-a de “demônio da intemperança”); ou em alguma coisa que o leva a cometer as atrocidades: o álcool ¬(“Meu mal, porém, ia tomando conta de mim –– que outro mal pode se comparar ao álcool?”).
Pluto tem um dos seus olhos arrancado pelo seu dono por este achar, em certo momento, que está sendo evitado pelo felino; em seguida, é morto por enforcamento. Ao cometer tais atos, lágrimas são expostas nos olhos do personagem-narrador.
O gato preto morre e, no dia seguinte, a casa onde o narrador-personagem morava com a esposa é incendiada, sobrando apenas uma parede, com a qual estava a cabeceira da cama do casal. Diante dessa parede, o protagonista vê uma multidão que declara palavras de espanto; porém, não se sabe se tais vocábulos são proferidos em razão de a parede ter resistido ao incêndio ou pelo que o narrador vê na parede: a imagem do gato com uma corda no pescoço. Em seguida, ele admite que pode ter sido uma alucinação e organiza uma explicação para a imagem vista (alguém poderia ter tirado o bichano da árvore, jogado pela janela e a representação do corpo da vítima ficara desenhada em razão da cal da parede e o desprendimento do amoníaco).
Outro gato (que é visto como a possibilidade de ser a reencarnação de Pluto) aparece na vida do personagem-narrador, que elimina a esposa, por esta interferir no seu objetivo de matar o animal. O corpo é emparedado e o gato some, causando fúria no narrador-personagem, o qual, no final do conto, dá bengaladas na parede, para mostrar aos policiais investigadores o quão fortes elas são. Então, tais batidas são respondidas por meio de uivos do gato, que fora emparedado junto com o corpo da mulher, encontrado em decomposição.
O autor, Edgar Allan Poe, perde a mãe aos dois anos de idade, é adotado por um casal de comerciantes, cujo sobrenome é intercalado à identificação Edgar Poe.
A esposa do narrador de “O gato preto”, de Edgar Allan Poe, desde o início do conto é posta como alguém que aceitava as vontades do marido. Ele a ressalta e diz ter tido sorte de ter uma mulher que não se opunha ao amor e obsessão que ele tinha por ter animais.
Neste trabalho, a intenção é conjecturar sobre a psicose do narrador-personagem, o qual não consegue lidar com o amor do gato e da esposa.
Ele delira em relação ao gato, que para ele é uma fusão com a esposa. Ora, se a esposa não o tivesse atrapalhado, o gato alucinatório poderia ter morrido. O corpo em decomposição da mulher é a ressurreição do gato que, num delírio do narrador, uiva dentro da parede.
Faz-se interessante mostrar um pouco da história mitológica de Pluto e ancorar a escolha desse nome por Poe no conto.
Plutão (do grego antigo Pluto = rico) ou Dis (do latim dives = rico) é como ficou conhecido o deus dos mortos e das riquezas na mitologia romana, após a introdução dos mitos e da literatura grega; e
que, originalmente, não possuíam os romanos uma noção de um reino para a felicidade ou infelicidade pós-morte, como o Hades grego - senão uma imensa cavidade, chamada Orco, que mais tarde passou a identificar-se com o submundo grego. Ao deus que o comandava, então, incorporaram Hades, sob o seu epíteto de Pluto. Ele também era responsável por tudo que se encontra abaixo da terra.
Pluto, ou Plutão, como há em algumas traduções do conto de Poe, é um diabo amado e odiado e há nele a responsabilidade das coisas ruins. O gato preto, com a incorporação desse nome, se funde com a esposa do narrador, a qual não é nomeada. Pluto é tão soberano que somente ele possui um nome.
Suponhe-se que o modo de o personagem-narrador de estar no mundo esteja dentro da estrutura da psicose, por algo não ter sido instalado no simbólico e retornado por meio do delírio. O narrador não gostava de conviver com os colegas, por ser humilhado, então preferiu viver na companhia dos animais, passando a maior parte de seu tempo com eles, não havendo uma lei que o fizesse dividir seu tempo também com as pessoas. “Dado que o Nome-do-Pai se inscreve no Outro inaugurando a simbolização, a foraclusão do Nome-do-Pai na psicose corresponde no sujeito à abolição da lei simbólica, colocando em causa todo o sistema do significante” (Quinet, 2006, p. 15).
"Desde a infância observaram minha docilidade e a humanidade de meu caráter. A ternura de meu coração era de fato tão conspícua que me tornava alvo dos gracejos de meus companheiros. Gostava especialmente de animais e, assim, meus pais permitiam que eu criasse um grande número de mascotes. Passava a maior parte de meu tempo com eles e meus momentos mais felizes transcorriam quando os alimentava ou acariciava. Esta peculiaridade de caráter cresceu comigo e, ao tornar-me homem, prossegui derivando dela uma de minhas principais fontes de prazer."
Usando uma metáfora com uma estante decorada com porta-retratos, o narrador coloca os que possuem seres humanos virados para a parede. Os que têm animais são os que aparecem as fotos.
Na fase adulta, o narrador, entre tantos animais que possuía, mostra maior afeto por Pluto, o gato que representa o inferno. A escolha de tal nome, no decorrer do conto, faz-se notar que não é ao acaso, pois, como na mitologia, o gato será tido como guardião de uma riqueza e também detestado, posto como algo do inferno. Como o personagem-narrador encontra uma mulher que o ama e faz suas vontades, ela passa a ser fundida com o gato, tanto no amor, quanto nas agressões. Pode-se dizer que o narrador-personagem é casado com Pluto-mulher.
Retornando à estante, há, na vida adulta, um retrato que inclui uma pessoa junto ao gato, porém um dia essa foto cai e o espaço deixado entre um porta-retrato e outro torna-se um abismo, o qual não é suportado pelo narrador-personagem.
Dessa forma, ele também “cai dessa estante” e não consegue fazer a organização simbólica do amor do gato (mostrado por meio do olhar) e tampouco do amor da esposa (que também era maltratada), havendo uma foraclusão destes, retornando no Real, na forma de alucinação e passagem ao ato, quando comete atrocidades com o Pluto, delirando que o gato é quem não tem mais amor a ser dedicado. Na alucinação do outro Pluto (o retorno no Real) “o que é foracluído no simbólico retorna no real” (Lacan, 1955-56, p. 98), há uma necessidade de acabar por completo com o amor que permeia a casa com a figura da esposa. Entretanto, esse Pluto vem com uma mancha branca no peito, talvez para mostrar que o outro foi realmente morto, mas que o perigo de amor (esposa) ainda está na vida do narrador.
Não havendo mais o que fazer com o amor disposto pela esposa, ele imagina que quer dar uma machadada no gato alucinado e diz que a esposa tenta salvar o Pluto, então ele mata a esposa e a empareda, ele a prende na parede e vai atrás do gato alucinado, que é encontrado (por meio de uivos delirantes) em cima da cabeça do corpo em decomposição da esposa. O Pluto, senhor da riqueza e da morte, está guardando a riqueza do narrador, que é a morte do que ele não suportou.
O psicótico, no sentido de que ele é, numa primeira aproximação, testemunha aberta, parece fixado, imobilizado, numa posição que o coloca sem condições de restaurar autenticamente o sentido do que ele testemunha, e de partilhá-lo no discurso dos outros. (LACAN, 1955-56, p.153).
Ele mata a esposa, mas não consegue matar sua alucinação, que jamais conseguiria desde a escolha do nome do gato, Pluto, um ser imortal.
Referências
Freud, Sigmund. O estranho, 1919.
LACAN, Jacques. Livro 3 – As Psicoses. O seminário, 1955-56.
DARIAN, Leader. O que é loucura? Delírio e sanidade na vida cotidiana, 2013.
Plutão (mitologia). In: Infopédia. Porto: Porto Editora, 2003-2013.
POE, Edgar Allan. O gato preto. Histórias extraordinárias. São Paulo: Editora Nova Cultural, 2002, p. 39-50.
QUINET, Antonio. Teoria e clínica da psicose, 2006.
segunda-feira, 7 de agosto de 2017
...mas tiveram
A casa era aconchegante como casa de avó e tenebrosa como o habitat do pai.
Os pais saíram para trabalhar e ela ficou agonizando cada pensamento sobre a vida. Lembrava de uma palestra em que o homem achara tenebroso a mãe ter pensado em abortá-lo. Ela, descrente da vida, lamentava por sua mãe não ter tido a mesma ideia e coragem para consumir o ato.
O lar tinha resquícios de lar, quando o pai não estava. Sua presença era sinônimo de proibição de vida.
__ Folgada.
Gritou o pai quando chegou. Mais uma vez essa característica vinda da boca de seu provedor.
Ela continuou em seus devaneios. Folga é falta de algo. Mas não para isso que servia um dia de folga? Faltarem coisas para fazer?
A única coisa que nunca lhe faltava era dor.
Lembrou-se da casa da vó que sempre fora seu abrigo, mas infelizmente incapaz de lhe arrancar das profundezas mais doridas.
Caminhar por esse pântano era um ar tétrico, glorioso. Outro caminho? Por onde? Para onde?
Mais uma vez vomitou sangue. Não socorrida. Não notada.
Juntou o sangue de seu vômito ao sangue de seus pulsos. Não fora socorrida.
Tiveram a coragem de um aborto tardio, mas tiveram.
Os pais saíram para trabalhar e ela ficou agonizando cada pensamento sobre a vida. Lembrava de uma palestra em que o homem achara tenebroso a mãe ter pensado em abortá-lo. Ela, descrente da vida, lamentava por sua mãe não ter tido a mesma ideia e coragem para consumir o ato.
O lar tinha resquícios de lar, quando o pai não estava. Sua presença era sinônimo de proibição de vida.
__ Folgada.
Gritou o pai quando chegou. Mais uma vez essa característica vinda da boca de seu provedor.
Ela continuou em seus devaneios. Folga é falta de algo. Mas não para isso que servia um dia de folga? Faltarem coisas para fazer?
A única coisa que nunca lhe faltava era dor.
Lembrou-se da casa da vó que sempre fora seu abrigo, mas infelizmente incapaz de lhe arrancar das profundezas mais doridas.
Caminhar por esse pântano era um ar tétrico, glorioso. Outro caminho? Por onde? Para onde?
Mais uma vez vomitou sangue. Não socorrida. Não notada.
Juntou o sangue de seu vômito ao sangue de seus pulsos. Não fora socorrida.
Tiveram a coragem de um aborto tardio, mas tiveram.
terça-feira, 25 de julho de 2017
Concreto
Ana acordou, sentindo Maria Flor remexendo dentro de sua barriga, tentou se levantar, mas se deparou com concreto.
Calma, é só um sonho, logo acordo de verdade. O bebê chutava sua barriga.
Suas narinas não sentiam mais o entrar da vida, se deu conta de que estava enterrada viva. Sempre tivera medo disso. Não podia ser verdade. Começou a se debater até sangrar no áspero do concreto.
Maria Flor ficava cada vez mais agitada. Ana, desesperada, incrédula, machucada, sem ar, morta. Maria Flor demorou um pouco mais para se aconchegar no ventre morto da mãe.
Amigos e familiares passaram meses procurando o paradeiro de Ana. Todos sabiam que ela havia sofrido várias ameaças do ex-companheiro, Agnaldo, mas a maioria se recusava a acreditar que um homem tão educado e extremamente cavalheiro pudesse fazer alguma ameaça a ela.
Ana era considerada louca por muitos, não tinha credibilidade, suas palavras e pedidos de socorro só funcionavam com algumas pessoas.
Agnaldo fez tudo sozinho, queria sentir o prazer de maltratá-la só para si. Ele a fez entrar no carro na volta do supermercado, ao qual ela ia a pé. Fingiu que o carro havia dado problema, parou e colocou no rosto de Ana um lenço com um líquido que a fez desmaiar. Ele sabia do seu maior medo. Já havia deixado tudo pronto no rancho onde haveria pessoas apenas depois de um mês.
Nas festas, ninguém desconfia de que Ana estava morta embaixo daquelas terras.
O homem sério e gentil ajuda a família da morta e a polícia nas buscas e Ana continua sendo chamada de louca por ter pedido socorro tantas vezes, avisando que esse homem poderia fazer algo contra ela.
Calma, é só um sonho, logo acordo de verdade. O bebê chutava sua barriga.
Suas narinas não sentiam mais o entrar da vida, se deu conta de que estava enterrada viva. Sempre tivera medo disso. Não podia ser verdade. Começou a se debater até sangrar no áspero do concreto.
Maria Flor ficava cada vez mais agitada. Ana, desesperada, incrédula, machucada, sem ar, morta. Maria Flor demorou um pouco mais para se aconchegar no ventre morto da mãe.
Amigos e familiares passaram meses procurando o paradeiro de Ana. Todos sabiam que ela havia sofrido várias ameaças do ex-companheiro, Agnaldo, mas a maioria se recusava a acreditar que um homem tão educado e extremamente cavalheiro pudesse fazer alguma ameaça a ela.
Ana era considerada louca por muitos, não tinha credibilidade, suas palavras e pedidos de socorro só funcionavam com algumas pessoas.
Agnaldo fez tudo sozinho, queria sentir o prazer de maltratá-la só para si. Ele a fez entrar no carro na volta do supermercado, ao qual ela ia a pé. Fingiu que o carro havia dado problema, parou e colocou no rosto de Ana um lenço com um líquido que a fez desmaiar. Ele sabia do seu maior medo. Já havia deixado tudo pronto no rancho onde haveria pessoas apenas depois de um mês.
Nas festas, ninguém desconfia de que Ana estava morta embaixo daquelas terras.
O homem sério e gentil ajuda a família da morta e a polícia nas buscas e Ana continua sendo chamada de louca por ter pedido socorro tantas vezes, avisando que esse homem poderia fazer algo contra ela.
sexta-feira, 7 de julho de 2017
Padarias e lojas de Conveniência
Estou em férias, dias de acordar tarde (teoricamente). Acordei muito cedo e com vontade de tomar um café e olhar pessoas.
Quando vim de Sales Oliveira para Ribeirão Preto (faz tempo), o que muito me encantava, nesta cidade que eu achava um monstro, era ver padarias e lojas de conveniência em que muitos tomavam café da manhã, da tarde, almoçavam e degustavam até o café da noite.
Lá em Sales, na minha infância e na adolescência,existia a perua do Zé Padeiro, este já deixava, em cada portão, a encomenda matinal de seus fregueses e também buzinava para saber se alguns queriam algo mais.
Aqui em Ribeirão ou em outras cidades, adoro tomar café nas padarias ou nos postos.
Hoje me levantei com muita fome, mas não queria nem meu café, nem meu pão. Queria gente. Poderia ter ido à padaria perto de casa, mas lá não tem a mesa da cozinha, tomada por pessoas deliciosamente desconhecidas, ou conhecidas.
Fui ao posto em que as moças são simpáticas, fiz meu pedido e fiquei observando pessoas saindo e entrando, umas com pressa, outras degustando seu café da manhã com calma, como eu.
Imaginei a história de algumas pessoas. O moço que estava ao meu lado deveria ser um escritor, estava saboreando as palavras de seu café para, depois, lançá-las no papel e lapidá-las.
O senhorzinho que disse para a moça: O de sempre _ pegou seu saco de pães e se dirigiu ao caixa, esse prefere um café em casa, talvez com esposa e filhos.
Ao lado do moço escritor, havia mais uma calmaria no café do homem que, na minha imaginação, era um arquiteto, estava pensando em sua próxima obra.
Muitos entravam, tomavam seus cafés correndo e saíam muito depressa. Com certeza, para não perder a hora do trabalho.
Ali, tinha muito de Zé Padeiro e de cafés da manhã tomados em mesas fartas. Faltou-me o ar de tanta alegria.segunda-feira, 5 de junho de 2017
Orgasmizar-se
Uma redenção aconteceu...
Apesar disso, sente-se livre e belo, bem, bem visto no sentido de desejado. O término o deu a dor da descoberta.
O sofrimento foi profundo, profano, devastou-o tanto que o desejo realizou-se: mostrar-se como homem com alguém, ou sem alguém.
Riu dos próprios tropeços e buscou a redução do medo.
Tem vontade de agradecê-la por cada agressão após o fim do relacionamento, pois somente assim rasgou-se e seu corpo ficou à mercê.
O rasgar da dor, a dor do rasgar eminentes e iminentes o levaram ao que uma mulher como ela jamais admitiria: sempre suprira o parceiro da forma mais sutil.
As estrelas tão acariciadas lhe organizam o corpo, a alma o cérebro.
Alguém ou alguéns... não importa!
Orgasmizar-se leva à sobrevivência!
Apesar disso, sente-se livre e belo, bem, bem visto no sentido de desejado. O término o deu a dor da descoberta.
O sofrimento foi profundo, profano, devastou-o tanto que o desejo realizou-se: mostrar-se como homem com alguém, ou sem alguém.
Riu dos próprios tropeços e buscou a redução do medo.
Tem vontade de agradecê-la por cada agressão após o fim do relacionamento, pois somente assim rasgou-se e seu corpo ficou à mercê.
O rasgar da dor, a dor do rasgar eminentes e iminentes o levaram ao que uma mulher como ela jamais admitiria: sempre suprira o parceiro da forma mais sutil.
As estrelas tão acariciadas lhe organizam o corpo, a alma o cérebro.
Alguém ou alguéns... não importa!
Orgasmizar-se leva à sobrevivência!
terça-feira, 16 de maio de 2017
Feijoada com galinhada
A bagunça estava posta à mesa.
__ A Maria do fulano morreu, você sabe? Eu fui no velório, mas não passei a noite, nem fui no enterro.
__ A fia do tal que morava lá embaixo separou.
__ Nossa! A festa tava ótima, eles me adoraram.
__ Agora vou contar uma fofoca forte.
__ Eeee, e aí? Tudo bão?
Eram vários assuntos ao mesmo tempo; muitas vezes, nem dava para assimilar quase nada, mas o objetivo era falar e escutar, entender era para outra instância ou família. Ali a fala era desculpa para se trocar carinho. A galinhada também... desculpa e entrelaçamento de vidas e histórias cortadas ou continuadas.
Pratos e os copos cheios. E a boca da vó materna vazia de dentes, mas transbordada de um riso sem tamanho, sem entendimento e reconhecimento do que estava acontecendo por ali e da fisionomia de todos os extremamente conhecidos-estranhos.
Acaba-se o domingo, nessa bagunça parecida com uma gaveta organizada e cheirosa.
Segunda-feira
Visita rápida às tia, prima, amiga queridas.
__Pega feijoada, fia, pega no prato fundo, no prato raso não cabe nada.
__Tô escutano, no rádio, o fulano falar mal do prefeito. Nóóó, hoje ele sai preso.
__Pega mais feijoada. Come esse jiló curtido.
__Qué cerveja?
__Cê viu o Lula? Mas eu achei bão. Ninguém acaba com ele, não. Nóóó, mas eu gosto do Lula.
__Qué mais jiló?
__Qué suco?
À mesa, um amor incondicional pelo primo que estava a sua frente, primo e afilhado; ao seu lado estavam as primas e afilhadas amadas com o mesmo amor dispensado ao primo e ao padrinho.
Barriga lotada, mas com espaço para sentir a vó paterna dizendo: Come mais, tira mais comida. Viver sem ela, nunca será fácil, apenas suportável.
Um carinho no gato, que também ama a vó.
Casa da mãe, um pouco de TV, prosa com ela e a prima afilhada. Um saco de salgadinho com sal da infância. E a notícia de que ganharia a cafeteira vermelha tão desejada.
Estrada.
Terça-feira
Um café, um cigarro para começar o dia e manter o gosto da galinhada e da feijoada.
__ A Maria do fulano morreu, você sabe? Eu fui no velório, mas não passei a noite, nem fui no enterro.
__ A fia do tal que morava lá embaixo separou.
__ Nossa! A festa tava ótima, eles me adoraram.
__ Agora vou contar uma fofoca forte.
__ Eeee, e aí? Tudo bão?
Eram vários assuntos ao mesmo tempo; muitas vezes, nem dava para assimilar quase nada, mas o objetivo era falar e escutar, entender era para outra instância ou família. Ali a fala era desculpa para se trocar carinho. A galinhada também... desculpa e entrelaçamento de vidas e histórias cortadas ou continuadas.
Pratos e os copos cheios. E a boca da vó materna vazia de dentes, mas transbordada de um riso sem tamanho, sem entendimento e reconhecimento do que estava acontecendo por ali e da fisionomia de todos os extremamente conhecidos-estranhos.
Acaba-se o domingo, nessa bagunça parecida com uma gaveta organizada e cheirosa.
Segunda-feira
Visita rápida às tia, prima, amiga queridas.
__Pega feijoada, fia, pega no prato fundo, no prato raso não cabe nada.
__Tô escutano, no rádio, o fulano falar mal do prefeito. Nóóó, hoje ele sai preso.
__Pega mais feijoada. Come esse jiló curtido.
__Qué cerveja?
__Cê viu o Lula? Mas eu achei bão. Ninguém acaba com ele, não. Nóóó, mas eu gosto do Lula.
__Qué mais jiló?
__Qué suco?
À mesa, um amor incondicional pelo primo que estava a sua frente, primo e afilhado; ao seu lado estavam as primas e afilhadas amadas com o mesmo amor dispensado ao primo e ao padrinho.
Barriga lotada, mas com espaço para sentir a vó paterna dizendo: Come mais, tira mais comida. Viver sem ela, nunca será fácil, apenas suportável.
Um carinho no gato, que também ama a vó.
Casa da mãe, um pouco de TV, prosa com ela e a prima afilhada. Um saco de salgadinho com sal da infância. E a notícia de que ganharia a cafeteira vermelha tão desejada.
Estrada.
Terça-feira
Um café, um cigarro para começar o dia e manter o gosto da galinhada e da feijoada.
terça-feira, 28 de fevereiro de 2017
Cordas vocais arrancadas
Uma voz agredida tantas vezes
Um silêncio
Sempre amputado
Uma batalha para ser fora
Estar dentro do que deseja
Voz agredida
Xingada
E espancada
Exigência de usar as cordas vocais apenas para assuntos bons
Não usá-las para lutas e argumentações
Muito menos para respostas
Usar a voz para o outro ouvi-la, crime
Cordas vocais descredenciadas e incriminadas
Uma voz agredida tantas vezes
Um silêncio
Aceito
Arranque sem anestesia
Para que as cordas sintam o quanto foram vocais fortes até agora
E que a fortaleza da luta acaba
sábado, 29 de outubro de 2016
Enigma
Os pesadelos pululavam e a colocavam
numa vida quase real. Aos doze anos, Dora passou um perfume, o primeiro de sua
vida. E o pai disse que ela estava com cheiro de puta amanhecida. A menina não
sabia exatamente o que era uma puta, mas, pelo tom de voz do pai e pelas vezes
que usou esse vocábulo como xingamento, entendeu que não se tratava de algo
bom.
De repente estava amarrada em uma
cama de hospital. Sentiu sede, pediu água para o enfermeiro. Ele se aproximou
com um copo de plástico e jogou a água na cara dela. A cena mudou rapidamente e Dora se viu em um corredor sendo estuprada. Tentava, sabe-se lá
como, sair do pesadelo, no entanto não tinha forças para fugir do estuprador e
nem para acordar.
A força que a movia no pesadelo era
apenas para mudar as cenas. Passou para o lugar onde estava no momento. A
noite tinha sido de muita mágoa e muito
choro. No amanhecer, Fred, seu companheiro, a acariciou, buscando sexo. Ela não
queria. Ele masturbou-se e ejaculou nela. Dora sentiu a sua dor crescer e as
forças para acordar cada vez minguavam mais. Sentou-se na cama porque a mãe a
acordara para bater nela, pois havia descoberto um caderno em que Dora relatava
seu interesse por um moço que estava morando, há pouco tempo, no bairro onde
ela morava.
Acordou, coração acelerado, choro,
cama demasiadamente grande. Trêmula, levantou-se para tomar água. A água tinha
gosto de carniça, pois havia se misturado com o sangue que ainda estava na boca
de Dora.
A dor no peito era insuportável,
começou a vomitar sangue novamente. O companheiro, que acabara de chegar em
casa, não viu necessidade de levá-la a um hospital. Dora não conseguia
entender, pois, em outras vezes, ele a havia socorrido.
Uma amiga passou a tarde com ela em um Pronto Socorro.
Quando Dora estava em casa novamente,
sentiu pânico, chorou, chorou, não havia como arrancar a dor que sentia. O
choro era insuficiente. Pensou em recorrer à escrita, mas a angústia aumentava
e sentia medo de apanhar do papel e da caneta.
Começou a se lembrar de quando
frequentava as aulas de crisma. O palestrante dissera que um verdadeiro cristão
nunca se sentia triste. Dora sempre perambulava no mundo da tristeza, então não
podia ser cristã. Nessa aula, achou que a sua infelicidade pudesse ser castigo.
Quando criança, morria de medo de Deus. Na pré-adolescência, quando cursava o
catecismo, não gostou quando a professora disse: Vocês podem duvidar de tudo,
até dos livros da escola, mas não podem duvidar da Bíblia. Nesse dia, Dora fora
para casa pisando o fogo do inferno. Gostava mais dos livros da escola do que
da Bíblia. Essa obra lhe causava angústia.
O choro voltou com muita força,
sentia-se culpada por ser ela, mas nem sabia quem era. Porém, achava que
deveria ter sido o que a família, o companheiro, a Bíblia e Deus esperaram
dela.
Agora não havia mais jeito, não
conseguia desfazer a dor e, muito menos, a descrença e o medo que sentia da
vida.
Dora sempre cortejara a dor e a
morte. Na adolescência, fazia parte do grupo que ouvia músicas que desenhavam a
tristeza, adentravam nessas letras. Possuía um amigo que, como ela, gostava dos
autores malditos, conversavam sobre as obras, escreviam poemas. Não viam beleza
na vida cotidiana. A maravilha estava lá: nos autores que mexiam em todos os
órgãos não corporais do leitor.
Um suspiro. Saudade. Dor. Dúvida.
O choro voltou ainda mais forte.
Lembrou-se de todos os amores que havia tido até o momento, parecia sentir na
pele as cintadas por causa do caderno que a denunciou à mãe. A dor no peito
voltou, o mundo estava desabando novamente. Agora também doía a barriga. Dora
tinha um feto dentro de si, mas duvidava se seria digno colocar alguém num
mundo em que ela não dava conta.
A dor no peito aumentou, a da alma
era maior. Deixou o peito e o útero doerem, desejava que a dor fosse ainda
maior, para que a sua angústia fosse amenizada.
Começou a sangrar. Da boca, saía uma
gosma. Quando o marido de Dora chegou, ela estava morta.
Ele comunicou a família. Não
compareceu ao velório e ao enterro.
Não se sabe se ele chorou a morte da
companheira e a do feto.
domingo, 2 de outubro de 2016
Sem ensinar, a vó Tunica me ensinou o que é o amor
Oi, vó, bença. Nunca ficamos tanto tempo assim sem nos ver, né? Mais de um ano. E ficaremos muito mais.
Estava mexendo na caixa em que guardo o RG do meu pai, o isqueiro do vô Peron e um lenço da senhora. Ah, o seu cheiro, Tuniquinha, está nele. Chorei tanto de saudade da senhora.
Ouvi sua voz dizendo: Lianinha, pra tudo nessa vida se dá um jeito. Mas ouvir apenas na lembrança não me acalma totalmente.
Eu queria chegar aí na sua casa, ver seu rosto meigo, calmo e ouvir a senhora dizendo que toda noite reza por todos nós.
Ah! Meus dias têm sido movidos pela senhora. Para levantar-me da cama, penso: O que a vó Tunica faria para enfrentar esses problemas? Sei que uma das coisas seria rezar. Então, rezo. Para falar a verdade, vó, o que me move é saber o que a senhora faria no meu lugar e não é, propriamente, a oração que me bota de pé.
Hoje eu estava tomando banho e lembrei-me de quando tinha um sapo no quintal, eu e o Denim começamos a gritar de medo. E lá veio a senhora com uma vassoura nos defender do ser asqueroso. Estou tendo de lutar com alguns sapos, vó. Queria que a senhora estivesse aqui com aquela vassoura para me defender. A senhora não está, mas ainda me protege.
A senhora se lembra do Lulu? Cachorrinho companheiro, né? E as plantas que a senhora tinha? Lembro-me sempre dos cipós. Não sei se existe outro nome para essa planta, mas, para mim, sempre que vejo uma, digo: Cipozinho da vó Tunica.
Ai, Tuniquinha, às vezes, sinto pena de quem não teve uma vó Tunica.
Lembra-se de quando a senhora pedia para eu escrever cartas para a tia Luzia de São Paulo? Eu achava tão chique: minha letra com as palavras da senhora estavam indo para a capital.
Lembro-me da senhora dizendo: É, minha cara, nessa vida a gente tem que engolir o boi com chifre e tudo.
Certa vez, tentaram "quebrar" essa sua frase, dizendo-me que, picar o boi e transformá-lo em bifes, fica mais fácil.
Inútil. Nada supera a sabedoria da senhora. Engolir o boi com chifre e tudo faz a digestão ser mais dolorosa, mas a gente fica mais forte.
Eu ainda não acredito que a senhora morreu. Mais de um ano e a dor não passa. É como as dores que a senhora sentia nos ossos. Às vezes davam uma trégua.
Eu queria ver a senhora e contar tudo o que está acontecendo na minha vida e ouvir a sua calma voz, dizendo: Pra tudo nessa vida se dá um jeito. A sua voz, sim, me fortaleceria.
Depois escrevo mais para relembrarmos juntas da importância que a senhora tem na minha vida.
A senhora me ensinou o que é o amor, sem ensinar.
Tchau, vó, bença.
Estava mexendo na caixa em que guardo o RG do meu pai, o isqueiro do vô Peron e um lenço da senhora. Ah, o seu cheiro, Tuniquinha, está nele. Chorei tanto de saudade da senhora.
Ouvi sua voz dizendo: Lianinha, pra tudo nessa vida se dá um jeito. Mas ouvir apenas na lembrança não me acalma totalmente.
Eu queria chegar aí na sua casa, ver seu rosto meigo, calmo e ouvir a senhora dizendo que toda noite reza por todos nós.
Ah! Meus dias têm sido movidos pela senhora. Para levantar-me da cama, penso: O que a vó Tunica faria para enfrentar esses problemas? Sei que uma das coisas seria rezar. Então, rezo. Para falar a verdade, vó, o que me move é saber o que a senhora faria no meu lugar e não é, propriamente, a oração que me bota de pé.
Hoje eu estava tomando banho e lembrei-me de quando tinha um sapo no quintal, eu e o Denim começamos a gritar de medo. E lá veio a senhora com uma vassoura nos defender do ser asqueroso. Estou tendo de lutar com alguns sapos, vó. Queria que a senhora estivesse aqui com aquela vassoura para me defender. A senhora não está, mas ainda me protege.
A senhora se lembra do Lulu? Cachorrinho companheiro, né? E as plantas que a senhora tinha? Lembro-me sempre dos cipós. Não sei se existe outro nome para essa planta, mas, para mim, sempre que vejo uma, digo: Cipozinho da vó Tunica.
Ai, Tuniquinha, às vezes, sinto pena de quem não teve uma vó Tunica.
Lembra-se de quando a senhora pedia para eu escrever cartas para a tia Luzia de São Paulo? Eu achava tão chique: minha letra com as palavras da senhora estavam indo para a capital.
Lembro-me da senhora dizendo: É, minha cara, nessa vida a gente tem que engolir o boi com chifre e tudo.
Certa vez, tentaram "quebrar" essa sua frase, dizendo-me que, picar o boi e transformá-lo em bifes, fica mais fácil.
Inútil. Nada supera a sabedoria da senhora. Engolir o boi com chifre e tudo faz a digestão ser mais dolorosa, mas a gente fica mais forte.
Eu ainda não acredito que a senhora morreu. Mais de um ano e a dor não passa. É como as dores que a senhora sentia nos ossos. Às vezes davam uma trégua.
Eu queria ver a senhora e contar tudo o que está acontecendo na minha vida e ouvir a sua calma voz, dizendo: Pra tudo nessa vida se dá um jeito. A sua voz, sim, me fortaleceria.
Depois escrevo mais para relembrarmos juntas da importância que a senhora tem na minha vida.
A senhora me ensinou o que é o amor, sem ensinar.
Tchau, vó, bença.
sexta-feira, 15 de abril de 2016
Odores de pedra
Maria Flor nascera num ambiente em que nunca fora desejada. Perambulou durante os nove meses na barriga da mãe, sendo marcada pelas palavras impostas em sua casa.
Quando o nascimento ocorreu, foi recebida por uma avalanche de não existir, embrenhou-se em uma guerra pela sobrevivência e adaptação. Perpassada por significantes desastrosos, lutava para entender que o bem-estar existia.
Em uma tarde ensolarada, dia de seu aniversário de dez anos, foi cumprimentada pelo seu primo. Sentiu tanta tristeza, não controlou o choro.
Escreveu em um caderno que estava triste e, como sempre, não sabia o motivo.
Cresceu com as desgraças vomitadas a todo momento, mas tinha algo que a movia para buscar um outro caminho. Talvez fosse Deus, mas preferia acreditar que era a avó, mulher sábia e amável, mas esta mostrava para Maria que era Deus o criador de tudo e que esse ser sagrado não abandonava sua criação, se esta lhe prestasse obediência, sem questionar seus mistérios.
O que seria um abandono de Deus? Ficar triste como Maria estava sempre?
Maria tinha medo de ir para o inferno, tentava fazer tudo de acordo com as leis de Deus para ganhar o céu. Embora sentisse certa desconfiança dessa tese, preferia não arriscar.
Quando os doze anos visitaram Maria, a encontraram perturbada e não havia com quem dividir a tal perturbação. As palavras existiam para quem tinha a permissão de proliferá-las. Para Maria, o seu corpo era a própria palavra, uma palavra invadida, forçosamente invadida por um pênis. Seus gritos de dor e socorro eram abafados pela mão do que a julgava merecedora daquela invasão.
Os mais profanos e angustiantes vocábulos fizeram-se presentes dentro dos órgãos de maria Flor.
Falar sobre? Jamais. Era mulher e mulher tinha de se comportar, caso contrário merecia ser agressivamente invadida. Era culpada, mas não entendia o que era se comportar. Talvez fosse ficar trancafiada em casa.
Depois de um tempo, o acontecimento desapareceu. Não lembrava mais disso. Somente carregava a dor ainda mais intensificada.
Maria Flor encontrou, na vida adulta, um ferrenho medo da perda e da dor. Era estranho sentir medo do sofrimento, pois vivia nele constantemente. Como sentir medo de estar onde sempre esteve?
Quando se descobriu grávida, alegrou-se e desesperou-se. Nunca achou a vida natural. Via como uma agressão obrigar um ser a estar no mundo. E ela estava fazendo o mesmo que fizeram com ela. Resolveu emprestar seu corpo para ser fruto da mais desnaturalizada das coisas: dar ao mundo um filho, ou dar um filho a um mundo. Será que este ser queria a vida?
O nono mês de gravidez encontrou Maria Flor espancada por lembranças. Num domingo ensolarado, a gestante esbravejou recordações, tomando a voz de seu pai, que havia morrido há anos:
Cheguei do trabalho junto com minha esposa, tomei banho, alguns
tragos no cigarro e na pinga e saí. O bar próximo de casa aglutinava amigos,
mulheres, baralhos, cerveja e cachaça. Eu sempre traía minha esposa com putas e
não putas. As que recebiam a segunda nomeação tinham família. Naquela noite,
tudo transcorria normalmente até que resolvi brigar no boteco. Não sei por que
usei a palavra “resolvi”, pois minhas brigas e agressões nunca se tratavam de
uma resolução. Gritei, esbravejei, xinguei, bati, apanhei e saí sem pagar a
conta, para outro recinto. Já estava embriagado e meu ódio aparecia e aumentava
toda vez que o álcool possuía meu corpo. Não! O álcool não era meu inimigo e
nem vilão, era um parceiro quase inseparável, ele me deixava do jeito que eu
queria que ele me deixasse; sem ele, eu era apenas um trabalhador tolhido pela
dor. Quanto ao meu ódio, não sei seu remetente verdadeiro, sei apenas que eu o
enviava às pessoas queridas. Será que meu ódio era meu bem mais precioso?
Voltemos à cena do segundo bar da noite. Bebi, briguei, agredi e fui agredido.
Voltei para casa de madrugada, esmurrei a porta da cozinha, Geórgia a
destrancou, continuei esmurrando e comecei a gritar: Abre, puta desgraçada,
hoje eu te mato. Minha filha, sonolenta, ouviu gritos ao fundo que se
misturaram com seus sonhos. Acordou assustada, quando a mãe entrou no quarto
dela. –– Seu pai está bêbado, esmurrando a porta... –– Você não vai abrir? ––
Já abri. Cansei de dar murros, entrei na cozinha, peguei uma faca fui para meu
quarto. A desgraçada não estava lá... –– Agora eu vou matar vocês duas. As
pobres coitadas estavam trancadas no quarto de minha filha. Um pontapé abriria
aquela porta, mas não dei o pontapé. Fiquei batendo na porta e gritando o ato
que eu queria cometer. Geórgia olhou pelo espaço que havia entre a porta e o
portal e viu a faca em minha mão, convocou a filha para pularem a janela.
Pediram socorro na casa de parentes. A polícia foi acionada. Antes de a polícia
chegar, a porta do quarto se abriu com os meus socos. As desgraçadas tinham
fugido. Joguei colchão, enfeites, panelas, cadeiras pelo chão da casa toda. Me
dirigi, cambaleante, até o quintal e, embaixo do pé de mexerica, soltei uivos
de ódio. A vizinha ficou me olhando assustada por cima do muro. Foi merecedora
do meu ódio também. Algemado, fui levado para a delegacia, onde passei o resto
da madrugada. Logo pela manhã, fui solto. Fui ao barbeiro, em seguida, ao bar.
Voltei para casa, e as caras de assombro e medo de Geórgia e de minha filha
eram perceptíveis de longe. Perguntei para minha filha quem havia chamado a
polícia, ela disse que não sabia. –– Manda o desgraçado que chamou a polícia
vir me enfrentar sem eu estar com algemas. Xinguei Geórgia, minha filha e o
cunhado que acabara de chegar. Mais uma vez, saíram fugidas de casa. Passou-se
uma semana e eu não sabia para onde tinham ido. Voltaram, mas acompanhadas pela
polícia para retirarem suas roupas. Eu quis agredi-las, mas, quando vi o
policial, estoquei minha agressividade para ser liberada em outro momento. Acho
que o guarda não merecia meu ódio. Dias depois fui avisado que deveria deixar a
casa. Eu ajudei a erguer aquelas
paredes, que guardavam dores, mas foram casulos de alguns momentos que não pesam
na minha recordação... –– Ah, a vida é uma festa... Cantou minha filha, ainda
pequena, quando a casa estava tomada por pedreiros, cimento, sujeira e muito
cansaço. Olhei para ela, que estremeceu de medo, soltei uma gargalhada. Contei
várias vezes essa história entre os amigos de boteco... eu não tinha muitas
outras parecidas.
Eu sempre tive histórias desastrosas para contar como esta: Num domingo à
tarde, minha filha, adolescente, estava estudando na sala, Geórgia havia ido
para a casa da mãe. Mandei a filha pegar o rádio e ligá-lo para mim na varanda,
pedi um lápis para ela e, tomando pinga, ouvindo música, escrevi um bilhete
como se outro homem tivesse escrito para minha esposa. “Geórgia, te encontro
hoje no mesmo lugar. Beijo do seu homem.” Em seguida, mandei minha filha ir até
a varanda para desligar o rádio, fui até o quarto e coloquei o bilhete na
janela. Deitei no chão da varanda e dormi. A adolescente ficara atenta a todos
meus passos e me seguira até o quarto sem eu perceber, me viu botando o papel
na janela. Depois que eu adormeci, ela foi pegar o papel e perdeu o chão... Não
acreditava em tamanha crueldade e idiotice de mal ter disfarçado minha letra.
Cambaleando, saiu de casa para ir até a casa da avó, como uma fugitiva, tremia
e olhava para trás para ver se não estava sendo perseguida por mim. Aos prantos
mostrou para a tia o bilhete e contou a cena. Morrendo de medo de mim, não quis
voltar para casa e temia por Geórgia, que chegaria sem saber o que estava
acontecendo. Minha esposa chegou, eu estava bebendo cerveja, comecei xingá-la e
falar do bilhete, ela disse que não sabia do que eu estava falando. Fui até a
janela e vi que o bilhete não estava mais lá. Ofendi Geórgia e falei que ela
havia retirado o papel. Quando me dei conta de que minha filha não estava mais
em casa, imaginei que ela havia pegado e ido para a casa de minha mãe. Fui
atrás dela, minha esposa foi em seguida, com medo que eu agredisse nossa filha.
Tinha toda razão de sentir tal medo... Só não espanquei a moça porque fui
segurado e, nesse dia, xinguei minha progenitora, ajoelhado no chão, prometendo
que nunca mais olharia na cara dela, por ter defendido as duas desgraçadas. A
dor de minha mãe só foi maior no dia da minha morte, muitos anos depois.
Passei
anos sozinho, remoendo minha dor de ter me separado da minha casa e da minha
família. Via poucas vezes minha filha, mesmo quando fomos vizinhos. Passados 10
anos de minha separação, problemas de saúde ocasionados pelo álcool e pelo
cigarro me impediam de trabalhar, tinha de contar com a ajuda da Assistência
Social, minha filha e familiares. Não conseguia abandonar o álcool e me
envergonhava quando algum parente me via nos bares da cidade. Minhas agressões
e xingamentos já não se proliferavam mais. A minha súplica era pela morte, nada
apaziguava minha tristeza. Nessa época, minha filha começou a me visitar com
mais frequência. As visitas tinham de ser nos bares, eram meu lar. Ela sentia
grande pesar por me ver sofrendo. O meu ódio tinha minado e o ódio dela por mim
havia se transformado em compaixão, mas ainda tinha medo do amor que sentia por
mim. Em um domingo à noite, liguei a TV para ver futebol. Acendi um cigarro,
tomei um copo de pinga, senti um incômodo, dificuldade para respirar, apaguei o
cigarro, melhorei. Uma dor insuportável adentrou meu peito, uma gosma começou a
escorrer pela minha boca. ¬–– A morte chegou, até que enfim. A dor aumentou,
aumentou e meu pescoço pendeu para frente. Fiquei ali no sofá por mais de 24
horas até ser encontrado por minha sobrinha. O corpo em decomposição não
poderia ficar à mostra. O caixão veio lacrado. Uma foto em cima da caixa que
carregava os restos de uma história de muita dor. Muitas
lembranças, café e cigarro para aguentar a noite. De manhã, deu-se o meu enterro.
No crepúsculo deste domingo espancado, ouviram-se gritos, choros. O filho de Maria Flor nascera e ela fora petrificada; no dia seguinte, ela fez companhia aos dejetos de Dário.
segunda-feira, 6 de abril de 2015
Morte, você é petulante!
Uma aluna do
sexto ano, dias atrás, depois da leitura de um texto que falava sobre o fim da
vida, disse:
__ A morte, às
vezes, pega pesado, né, “psora”.
Comentários
surgiram a partir disso, a aula fugiu (ainda bem) do que estava programado e a frase dessa pré-adolescente ressoa em mim
desde então.
“A morte, às
vezes, pega pesado”...
Ah! Às vezes? Não
é sempre que essa senhora pega pesado? E, brilhantemente, ela é de profunda
importância... Saramago nos ensinou isso em “Intermitências da morte”... Tantas
outras pessoas nos ensinaram/ensinam isso...
Mas qualquer
escrito perde valor no momento em que a morte vem para aqueles que
acreditávamos que nunca morreriam...
Já escrevi e
falo sobre o medo que eu tinha de a vó Tunica desaparecer enquanto eu estava na
creche. Quando descobri que isso não aconteceria, determinei eternidade para
ela.
No dia
5/3/2015, algo resolveu contrariar minha sapiência infantil... e a vó Tunica
teve de partir.
Um mês após esse
grande peso da morte, começo a sentir o alívio que o peso da história pode
proporcionar. Uma história cravada nas
palavras... Isgrise, esbrontolar, jhavai, dirondar, tonheto, garribarde... Dar
significado para esses vocábulos é quase impossível... buscam-se
definições para essas e outras expressões; no entanto, a força delas está na
vó, é a própria Dona Tunica: Contar
pratinhas para pagar as contas, ensinar que, na vida, para tudo tem um jeito, bater
palmas quando o “parmera vara um gô”, mandar arrumar o chinelo que está tonheto, ficar com isgrise, gritar de dor ao
saber da morte do meu pai, sempre trabalhar e cuidar muito de todos, fazer sopa
de macarrão comprido ou macarrão picado, pegar o istroce para pôr ali no coiso,
rezar, contar as histórias da Sá Maria, da panela de polenta que a bisa não
permitia que fosse lavada no outro dia, ensinar a importância de se ir à missa
e aos velórios, fazer visitas na casa da
“cumade” Ana, cortar cabelo na Leninha... As histórias da vó,
lembradas, esquecidas, relembradas, sempre dirondarão por todos nós, sobrepondo
seu peso ao da morte.
A vó Tunica
sabia que a história era mais forte que a partida, construiu, para nós, o “nonim”, por
meio de relatos (nunca precisamos de retratos para vê-lo nas festas
e lidas da roça e, até mesmo, na dor de ter uma doença incurável).
Muitas vezes,
procurei Deus, deuses, santos, entidades, velas e, inclusive, o nada, para
entender o susto, a revolta, a dor de
ver alguém tão amado partir. Depois de tantas perdas, agarrar-me ao não
entendimento da morte, sentindo o peso dela, me traz a força histórica, que me deixa respirar e me curar, como os queijos no sítio do Zé Peron, o qual também nos
deixou grandes histórias... deixou lá a cadeira dele, o chamamento da vaca
Guaíra, o recitar mais belo de xingamentos, a força do trabalho e do olhar. Lá
do sítio, sai o cheiro do pão de chocolate... e sai, também, lá da casa da tia
Isabel, a Beluda, que fazia pão e chá de chocolate... proseávamos e proseávamos...
era prosa para mais de metro. Ela ainda grita dentro de nós: “Cala-te, boca.” “Cê
que não muda esse jeitinho, não.” “Oh, língua maléfica”...
As histórias
dessas e outras pessoas amadas constroem
minha história, meu sangue... que é perpassado pelo Zé, meu Zé Umberto Gazola,
trajado de durezas e fraquezas... Meu
Zé... Meu e da vó Tunica, a essência da minha explosão perante a história.
A morte pega
pesado... Muito pesado! Ela é petulante o suficiente para nos deixar no
desamparo da ignorância...
Que as
histórias possam sempre me reconstruir...
sexta-feira, 6 de março de 2015
Tchau, vó. Bença.
Sim! O corpo no caixão era o dela. Não queríamos que fosse.
O velório se iniciou; do carro de som, saíram tão inacreditáveis palavras:
"A família Gazola anuncia o falecimento de Antônia Rossetti Gazola, mais conhecida como Dona Tunica. (...) O enterro será no dia 6/3 às 8h (...)"
Enterro... Enterrar a vó Tunica. Ah! Alguém estava fazendo uma brincadeira de mau gosto. Nós jamais deixaríamos a terra cobrir a nossa amada... Mas o corpo dela, gelado, com flores, com um rosário, gritava que a vó também fazia parte dos corpos mortais.
O corpo mortal tão carregado da imortalidade, sustentada pela força das lembranças e do amor.
Muita dor, tristeza, pranto e, no decorrer da noite, risos, histórias e mais histórias da vó com seus netos.
Eu tinha 8 meses de idade, quando comecei a passar o dia todo na casa da vó. Meus pais trabalhavam e me buscavam à noite.
Ela sempre contava que eu assistia à novela dos gatinhos com ela e também que morria de medo de passar pelo portão da rua sozinha. Não me lembro disso, mas recordo-me do temor que tive quando, aos 5 anos, comecei a frequentar a pré-escola, na creche, que ficava quase em frente à casa da vó. Eu queria que o dia passasse muito rápido para eu ter certeza de que ela ainda existia ali do outro lado da rua.
Depois, descobri que, mesmo eu não passando o dia todo com a Dona Tunica, ela não sumiria. Que alívio!
Aos domingos, íamos à missa juntas. Eu não entendia muito bem tudo o que era falado pelo padre Franco, mas de uma coisa eu tinha a máxima certeza: "Oremos" significava: "Levantem". Ele dizia: "Oremos" e todos se levantavam... Passaram-se alguns anos para essa minha certeza ser substituída pelo entendimento do ritual.
Hoje o mesmo padre Franco rezou aos pés do corpo da vó. Ele não disse a tão marcante palavra, porém, assim que ele chegou perto do caixão, levantamo-nos... Lembrei-me das cenas dominicais e pensei que minha maluca certeza poderia ter um pouco de razão...
"Tudo dia, eu rezo proceis. Pro meus fio, pro meus neto... pa tudo, pa tudo." Imagino que tenhamos nos levantado de tantos tombos pelo amor da oração da vó.
E o amor dela também me fez amar as palavras. Quantas e quantas vezes ela ouvia minhas histórias inventadas e dava trela para eu prosseguir.
Num dia, sentados no chão da varanda, eu e meu primo contávamos para ela mais uma invenção literária. Ela disse:
__Que história mais sem pé, nem cabeça...
Respondi que o menino da história não tinha nem pé, nem cabeça mesmo...
__ Ah é?
E continuou emprestando toda sua atenção de leitora de narrações.
Ah! E a paixão dela pelas palavras em forma de letras... Era analfabeta, em razão de "mulher não tem que ir para escola", regra impregnada em boa parte da sua vida. Depois de adulta e já com netos, embora insistíssemos, não quis quebrar esse "tabu", talvez por vergonha...
Bom! Mas mesmo "sem leitura" (como ela dizia), nos ensinou a beleza e o prazer dos estudos...
Ensinou-nos tanto, tanto... A maior lição foi a do amor, esse sentimento tão difícil de se atribuir um significado que o abarque completamente.
Hoje, vó, me despedi da senhora, como sempre: "Tchau, vó. Bença." Mas não ouvi as palavras que acompanhavam nossas despedidas: "Tchau, Lianinha. Deus te 'bençoe'. Toma cuidado por tudo. Tenha uma boa noite sagrada. Vai com Deus e Nossa Senhora."
Ah, minha, nossa, vó Tunica... quanta saudade!!
Mande um beijo meu aí para seu amado filho __ meu velho pai...
Tchau, vó. Bença.
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