quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026
O que cabia no vazio das mãos
Helena caminhava pela cidade como quem carrega um vidro invisível entre as mãos: se apertasse demais, quebrava; se soltasse, estraçalhava. Desde pequena, suas feridas eram tratadas como ranhuras em móveis velhos, detalhes incômodos que a estética da casa exigia ignorar. Quando chorava, ouvia que era nervosa; quando sangrava, diziam que era exagero. Sua existência tornou-se um rascunho mal lido, uma sucessão de frases interrompidas pela pressa alheia. Como Macabéa, Helena parecia pedir desculpas por ocupar um deslocado espaço no ar, mas, ao contrário de Macabéa, que ignorava sua própria miséria, Helena sentia o peso de cada átomo de sua insignificância. Se Macabéa era feita de algodão sujo, Helena era feita de um silêncio que ninguém se dava ao trabalho de traduzir.
A tragédia não veio da solidão, mas do retorno agressivo daqueles a quem ela entregou seus melhores anos e sua própria substância. Pessoas que ela alimentou com o próprio tempo e renúncia passaram a cercá-la com um ódio inexplicável. Onde antes havia o sacrifício dela, floresceu neles uma perseguição voraz, como se a simples existência de Helena fosse uma dívida que eles se recusavam a pagar. A angústia que a sufocava não era o medo de perder algo concreto, mas a sensação de estar saturada pela vontade do outro. Era o sufoco de ser transformada em um objeto estranho, um depósito de culpas alheias, presa em um espelho que devolvia uma imagem distorcida que todos juravam ser sua única face.
Helena se deu conta de que ela era a cena preterida, o resto que sustentava o banquete daquelas pessoas. Entendeu que o mal que lhe faziam era a única forma que eles tinham de não olhar para o próprio vazio. Em um gesto concreto de ruptura, ela caminhou até o armário onde guardava as memórias e objetos daqueles que a perseguiam. Sem o drama do choro ou a busca por uma explicação que o outro nunca daria, ela reuniu tudo em uma caixa e a deixou no meio da calçada, entregando ao vento o que não lhe pertencia mais. Ao fechar a porta de casa e trancá-la pelo lado de dentro, não para se esconder, mas para delimitar onde o outro terminava, ela sentiu o nó na garganta ceder.
O impacto desse não silencioso reverberou como um colapso invisível na estrutura daqueles que a perseguiam. Acostumados a vê-la como o suporte passivo de suas próprias frustrações, o súbito vácuo que ela deixou desorientou o grupo. Sem o alvo, o ódio deles perdeu o vetor; sem o espelho que Helena lhes oferecia, eles foram subitamente confrontados com as próprias deformidades que antes projetavam nela. A perseguição, que antes se alimentava da reação e da dor dela, tornou-se um monólogo histérico e vazio. Ao não oferecer mais a sua angústia como banquete, Helena desintegrou o laço que os unia na crueldade.
Ao cair da tarde, o apartamento de Helena exalava o cheiro de uma casa que já não esperava por ninguém. A porta da frente, encostada, balançava levemente com o vento do corredor, revelando uma sala impecavelmente limpa, despojada de qualquer traço de quem a habitou. Na mesa da cozinha, a maçã que antes apodrecia fora removida, deixando apenas uma mancha circular e seca na madeira, como um carimbo de algo que deixou de ser. Não havia bilhetes, nem explicações, apenas o silêncio de quem retirou o corpo de cena para que o espetáculo do ódio alheio perdesse o sentido por falta de audiência.
Na calçada, a caixa de memórias que Helena descartara estava revirada pelo vento, com fotografias rasgadas voando em direção ao bueiro. Algumas quadras dali, uma mulher com o passo firme de quem não carrega mais o peso do mundo nos ombros foi vista entrando em um ônibus de viagem, sem olhar para trás, levando apenas o que cabia no vazio das mãos. Ao mesmo tempo, vizinhos comentavam sobre o som de algo pesado atingindo a água do rio que cortava a cidade, um mergulho definitivo na escuridão profunda que sempre a rondara. Helena agora era uma ausência absoluta, um enigma que aqueles que a perseguiam jamais conseguiriam decifrar. Onde quer que estivesse, ela deixara de ser o objeto de todos para se tornar o mistério de si mesma.
terça-feira, 17 de fevereiro de 2026
A trincheira da encruzilhada
O café repousa, esquecido e frio, como um cadáver de louça sobre a mesa, enquanto Maria naufraga o olhar no asfalto que arde lá fora. O sol do meio-dia é um carrasco que não pede licença; ele invade o cômodo, expondo a poeira que dança no ar, partículas de um cansaço que os séculos de servidão não deixam limpar. Maria não é apenas um nome, é uma geografia de cicatrizes, um mapa de mãos calejadas por carinhos devolvidos em forma de espinhos. Ela observa o desfile dos injustos: a vizinha, cujo coração é um deserto de empatia, ostenta o brilho de um metal novo, enquanto o patrão, que costura o lucro com a linha do suor alheio, sorri em molduras de ouro. A vida parece um banquete onde os lobos se fartam e as ovelhas pagam a conta.
“Por que o açoite do desprezo sempre encontra as minhas costas? Eu, que fiz do meu peito um abrigo e da minha cozinha um altar para saciar a fome de quem hoje me cospe. Eles me olham como se eu fosse um bicho, uma criatura de rito e resto, esquecendo que foi o meu axé que segurou o mundo deles quando o teto ameaçou desabar. O amor que plantei colhi em pedradas de indiferença. Dizem que meu santo é 'pesado', mas pesado é o fardo de ser gente num mundo que só entende o cifrão. Sou carne, sou sangue ou apenas a sombra que limpa o chão de quem se acha dono da luz? Meu pranto é o mar de Iemanjá, mas meu silêncio é o trovão que Xangô guarda para o dia do acerto.”
No canto da sala, o sagrado é sua única trincheira contra o preconceito que se veste de linho. Maria não teme os mortos, pois eles guardam o segredo do repouso; seu pavor nasce dos vivos, dos "homens de bem" que usam a fé como chicote para marcar a classe social. Entre o aroma da arruda e o mistério do fumo, ela invoca seus advogados invisíveis. Iemanjá é o colo de sal que lava a alma da subalterna; Xangô é o machado da verdade que corta o nó cego da injustiça. Lula, na parede, é o espelho de carne: o Xangô que vestiu a faixa para equilibrar a balança, o Zé Pilintra que driblou a fome e o preconceito para provar que a dignidade não se curva ao terno e à gravata.
Para ela, a justiça é uma encruzilhada onde o místico e o político se abraçam. Seu Zé Pilintra é o guia da malandragem santa, aquele que conhece o lodo da rua, mas mantém a alma branca. Ele e o "homem do povo" são a mesma reza: a prova viva de que quem foi tratado como bicho também pode governar o destino. Maria ajeita a guia no pescoço, sentindo o peso do cristal contra a pele. Se a justiça humana é um labirinto de conveniências, a de seus guias é o rio que sempre encontra o mar. Ela se levanta, não como quem aceita a derrota, mas como quem sabe que o tempo é um senhor que não dorme, e que cada lágrima sua está sendo devidamente anotada no livro de Xangô.
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